Colisão gigantesca entre dois planetas a 11 mil anos-luz pode ter sido observada

Astrônomos podem ter flagrado colisão entre dois planetas (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)
Astrônomos podem ter flagrado colisão entre dois planetas (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)

O universo pode ter revelado recentemente um espetáculo cósmico extremamente raro. Astrônomos acreditam ter detectado sinais de uma colisão violenta entre dois planetas em um sistema estelar localizado a cerca de 11 mil anos-luz da Terra. O evento teria produzido uma enorme nuvem de poeira e detritos incandescentes, capaz de alterar temporariamente o brilho da estrela ao redor.

A descoberta foi liderada por Anastasios Tzanidakis, da Universidade de Washington, e descrita na revista científica The Astrophysical Journal Letters. O fenômeno foi observado ao analisar dados acumulados ao longo de vários anos sobre a estrela Gaia20ehk, um astro da sequência principal, semelhante ao Sol.

Inicialmente, a estrela parecia estável. No entanto, registros astronômicos revelaram mudanças inesperadas em seu brilho. Entre as principais pistas que levaram à hipótese de colisão planetária estão:

  • Quedas abruptas de luminosidade da estrela, registradas ao longo de vários anos;
  • Oscilações caóticas de brilho a partir de 2021;
  • Presença de nuvens densas de poeira orbitando o sistema;
  • Emissão intensa de radiação infravermelha, indicando material extremamente quente.

Esses sinais sugerem que grandes quantidades de detritos rochosos passaram a orbitar a estrela, bloqueando parte da luz que chega à Terra.

Uma estrela aparentemente comum revelou um evento extraordinário

A estrela Gaia20ehk fica na região da constelação de Puppis e normalmente apresentaria um brilho estável, como ocorre com estrelas semelhantes ao Sol. Entretanto, a análise detalhada de observações arquivadas revelou um comportamento incomum.

Os cientistas perceberam que o fenômeno não era causado pela estrela em si, mas sim por material em órbita que interceptava sua luz. A explicação mais consistente é que dois corpos planetários colidiram violentamente, espalhando rochas vaporizadas e poeira quente pelo sistema.

Quando esses fragmentos passam entre a estrela e a Terra, eles reduzem temporariamente o brilho observado, criando o padrão irregular detectado pelos telescópios.

Luz infravermelha revelou material extremamente quente

Imagem multiespectral mostra estrela Gaia-GIC-1 e aumento no brilho infravermelho (Imagem: Anastasios Tzanidakis and James R. A. Davenport 2026 ApJL 1000 L5 - 2026/ CC BY-SA 4.0)
Imagem multiespectral mostra estrela Gaia-GIC-1 e aumento no brilho infravermelho (Imagem: Anastasios Tzanidakis and James R. A. Davenport 2026 ApJL 1000 L5 / CC BY-SA 4.0)

Uma das pistas mais importantes veio da comparação entre luz visível e radiação infravermelha.

Enquanto a luminosidade visível diminuía e se tornava instável, os sensores infravermelhos detectaram um aumento significativo de emissão energética. Esse contraste sugere que os detritos gerados na colisão estavam aquecidos a temperaturas muito elevadas, passando a emitir radiação térmica.

Esse tipo de assinatura energética é compatível com impactos planetários de grande escala, capazes de liberar enormes quantidades de calor.

Um possível paralelo com a origem da Lua

Os cientistas também observam que o material parece orbitar a estrela a aproximadamente uma unidade astronômica, distância semelhante à que separa a Terra do Sol.

Esse detalhe levanta uma hipótese intrigante: o evento pode lembrar o impacto colossal que ocorreu há cerca de 4,5 bilhões de anos, quando um corpo do tamanho de Marte colidiu com a Terra primitiva e originou a Lua.

Com o tempo, a nuvem de detritos ao redor da estrela distante pode se resfriar e se reorganizar, formando novos corpos celestes. Esse processo pode levar desde alguns anos até milhões de anos.

Telescópios do futuro podem revelar mais colisões

Apesar de colisões planetárias provavelmente serem comuns durante a formação de sistemas solares, observá-las diretamente é extremamente difícil. Para serem detectadas, os detritos precisam passar exatamente na linha de visão entre a estrela e os telescópios na Terra.

No entanto, novas gerações de observatórios astronômicos devem ampliar significativamente essas descobertas. O Observatório Vera C. Rubin, por exemplo, poderá identificar dezenas ou até centenas de eventos semelhantes nas próximas décadas. Encontrar mais colisões desse tipo ajudará os cientistas a compreender melhor como planetas se formam, evoluem e, eventualmente, dão origem a mundos capazes de sustentar vida.

*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ).

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes