Molécula do cérebro pode desregular células e influenciar o autismo

Estudo revela como sinais químicos alteram o cérebro no TEA. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Estudo revela como sinais químicos alteram o cérebro no TEA. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) envolve diferenças na comunicação social e no comportamento. Um estudo recente publicado na revista científica Molecular Psychiatry descobriu um mecanismo celular que ajuda a explicar parte do funcionamento do cérebro em pessoas com TEA.

O estudo mostra como uma molécula chamada óxido nítrico, que normalmente ajuda os neurônios a se comunicarem, pode causar efeitos em cascata quando não funciona corretamente.

Óxido nítrico: ajudante que pode atrapalhar

Proteína TSC2 controla via mTOR e comunicação neuronal. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Proteína TSC2 controla via mTOR e comunicação neuronal. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

No cérebro, o óxido nítrico ajuda os neurônios a passarem mensagens corretamente, funcionando como um “mensageiro químico silencioso”. Porém, em alguns casos de autismo:

• Ele pode alterar uma proteína chamada TSC2, que normalmente freia uma via celular importante chamada mTOR.
• Quando a TSC2 diminui, a via mTOR fica hiperativa, levando a excesso de crescimento e produção de proteínas nas células.
• Isso pode atrapalhar a comunicação entre neurônios e contribuir para características do TEA.

Como os cientistas conseguiram equilibrar essa via

Os pesquisadores testaram maneiras de interromper essa reação em cadeia:

Reduzindo o óxido nítrico nos neurônios, a proteína TSC2 voltou ao normal.
• Criaram uma versão modificada da TSC2 que resiste às alterações do óxido nítrico.
• Essas mudanças ajudaram a trazer de volta o equilíbrio da via mTOR e reduziram alterações celulares associadas ao autismo.

Esses resultados mostram que uma única alteração molecular pode ter grande efeito na atividade das células cerebrais.

Evidências vindas de crianças com TEA

O estudo também analisou amostras de crianças com autismo, incluindo aquelas com alterações genéticas conhecidas e casos sem causa identificada. Os resultados confirmaram:

TSC2 reduzida nas células cerebrais
Via mTOR mais ativa
Correlação com alterações observadas no autismo

Isso reforça que o mecanismo descoberto em laboratório tem relevância no mundo real.

Implicações para tratamentos futuros

A descoberta abre novas possibilidades para pesquisas e terapias no TEA:

Desenvolver medicamentos que modulam o óxido nítrico
Proteger a proteína TSC2 para equilibrar a via mTOR
Identificar novos alvos celulares para tratamentos mais precisos

Entender essa cadeia de eventos ajuda a criar estratégias direcionadas para melhorar a função cerebral e qualidade de vida das pessoas com autismo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn