Buracos negros supermassivos podem estar “apagando” galáxias vizinhas, revela estudo

Quasares podem sufocar estrelas em galáxias vizinhas (Imagem: NASA CC0 Images via Canva)
Quasares podem sufocar estrelas em galáxias vizinhas (Imagem: NASA CC0 Images via Canva)

A ideia de que buracos negros supermassivos influenciam suas galáxias já é bem estabelecida. No entanto, novas evidências sugerem algo ainda mais impactante: quando estão ativos, esses gigantes podem comprometer a formação de estrelas também em galáxias vizinhas, remodelando regiões inteiras do universo primitivo.

Na linguagem da astrofísica, “extinguir” uma galáxia não significa destruí-la fisicamente, mas sim bloquear a formação de novas estrelas. Isso acontece quando o gás interestelar, base para o surgimento de astros, perde a capacidade de esfriar e se condensar. Privada desse recurso, a galáxia passa a envelhecer sem reposição estelar, entrando em um processo de enfraquecimento progressivo. De maneira simplificada, esse fenômeno envolve:

  • Superaquecimento do disco de acreção que circunda o buraco negro;
  • Liberação de radiação extremamente energética em diversas faixas do espectro;
  • Produção de jatos relativísticos que se propagam por enormes distâncias;
  • Alteração térmica e ionização do gás em galáxias vizinhas.

Quasares brilhantes podem silenciar o nascimento de estrelas

No coração de muitas galáxias existe um buraco negro com milhões ou bilhões de vezes a massa do Sol. Quando ele passa a devorar grandes quantidades de matéria, forma-se um Núcleo Galáctico Ativo (AGN). Em sua versão mais luminosa, esse fenômeno é chamado de quasar, capaz de brilhar mais do que todas as estrelas da galáxia combinadas.

Observações recentes feitas pelo Telescópio Espacial James Webb revelaram um padrão intrigante: os quasares mais poderosos parecem cercados por menos galáxias com atividade estelar detectável. Inicialmente, isso levantou dúvidas observacionais. Contudo, análises detalhadas indicaram que essas galáxias podem estar presentes, porém com sua formação estelar severamente reduzida.

O caso extremo de J0100+2802

Um dos objetos analisados foi o quasar J0100+2802, existente quando o universo tinha menos de 1 bilhão de anos. Seu buraco negro central possui cerca de 12 bilhões de massas solares, tornando-o um dos mais massivos já identificados em épocas tão remotas.

Ao mapear sinais de oxigênio ionizado, indicador de estrelas recém-formadas, pesquisadores encontraram escassez desse elemento em galáxias situadas até um milhão de anos-luz do quasar. O resultado aponta para um efeito de supressão estelar em escala intergaláctica, algo até então apenas teorizado.

Os achados, publicados no periódico The Astrophysical Journal Letters, reforçam a noção de um verdadeiro ecossistema galáctico, no qual a atividade extrema de um único núcleo pode alterar profundamente o ambiente cósmico ao redor.

Portanto, compreender o papel dos quasares no universo jovem não é apenas uma curiosidade astronômica. Trata-se de uma peça-chave para explicar como as galáxias, inclusive a nossa, evoluíram ao longo de bilhões de anos sob a influência silenciosa, porém poderosa, desses predadores cósmicos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes