O avanço acelerado da miopia ao redor do mundo tem sido amplamente atribuído ao uso excessivo de celulares, computadores e tablets. No entanto, evidências científicas recentes indicam que o problema pode estar menos relacionado às telas em si e mais às condições visuais dos ambientes internos, especialmente a baixa luminosidade associada ao foco prolongado em objetos próximos. Essa combinação, comum na rotina moderna, pode estar alimentando silenciosamente uma verdadeira epidemia visual.
Dados globais mostram que a miopia já afeta quase metade dos jovens adultos em países ocidentais e atinge proporções ainda maiores em regiões da Ásia. Embora fatores genéticos tenham influência, o crescimento rápido em poucas gerações aponta claramente para mudanças ambientais e comportamentais como elementos centrais.
Iluminação fraca e esforço visual prolongado
Pesquisadores da SUNY College of Optometry propõem uma hipótese integradora: quando uma pessoa realiza atividades de perto por longos períodos em ambientes com iluminação insuficiente, ocorre uma contração pupilar relacionada à acomodação visual. Esse ajuste reduz a quantidade de luz que alcança a retina, diminuindo a estimulação necessária para manter o desenvolvimento visual saudável.
Diferentemente do que ocorre ao ar livre, onde a pupila se ajusta ao brilho intenso mantendo boa entrada de luz, ambientes internos pouco iluminados criam um cenário fisiológico desfavorável. Com o tempo, essa redução repetida da estimulação retiniana pode favorecer alterações estruturais no olho, contribuindo para a progressão da miopia.
Uma ponte entre diferentes teorias da miopia
Essa nova abordagem ajuda a conectar achados que antes pareciam independentes. Estratégias conhecidas por retardar a miopia, como lentes multifocais, uso de atropina oftálmica e maior tempo ao ar livre, podem atuar reduzindo a demanda acomodativa ou aumentando a iluminação efetiva da retina.
Além disso, experimentos laboratoriais mostram que lentes negativas intensificam a contração pupilar durante o foco próximo, diminuindo ainda mais a luz retiniana. Esse efeito se torna mais forte quanto menor a distância de visualização, quanto mais tempo a acomodação é mantida e quando o olho já apresenta miopia estabelecida.
O que muda na prevenção e no tratamento
Se confirmada, essa hipótese reforça que não basta reduzir o tempo de tela. A qualidade da iluminação e a forma como os olhos são usados no dia a dia tornam-se fatores centrais. Medidas potencialmente benéficas incluem:
- Manter ambientes bem iluminados durante leitura e uso de telas
- Reduzir períodos longos de foco contínuo em curta distância
- Alternar atividades de perto com olhar para longe
- Incentivar tempo ao ar livre, sempre com proteção ocular adequada
Essas estratégias podem ser menos eficazes se o hábito de esforço visual prolongado em locais escuros for mantido.
Base científica do estudo
Os achados foram descritos no estudo “Human accommodative visuomotor function is driven by contrast through ON and OFF pathways and is enhanced in myopia”, publicado na revista Cell Reports, com autoria principal de Urusha Maharjan, em 17 de fevereiro de 2026 (DOI: 10.1016/j.celrep.2026.113742).

