Pressão alta e obesidade podem causar demência silenciosa, revela estudo

Excesso de peso pode causar danos diretos ao cérebro. (Foto: Andov via Canva)
Excesso de peso pode causar danos diretos ao cérebro. (Foto: Andov via Canva)

A relação entre obesidade, hipertensão e demência acaba de ganhar um novo nível de evidência científica. Um estudo genético recente indica que o excesso de peso não apenas aumenta o risco de declínio cognitivo, mas pode causar demência de forma direta, especialmente quando está associado à elevação crônica da pressão arterial.

Publicado em janeiro de 2026 no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, o trabalho analisou dados genéticos de grandes populações da Dinamarca e do Reino Unido, oferecendo uma visão robusta sobre como fatores metabólicos interferem na saúde cerebral ao longo da vida. 

Desde o início, o estudo chama atenção por ir além de associações estatísticas. Ao investigar o papel do índice de massa corporal elevado, os pesquisadores demonstraram que o impacto do excesso de peso sobre o cérebro ocorre por mecanismos causais, especialmente por meio de danos vasculares cerebrais.

Metabolismo afeta diretamente o cérebro

A demência engloba um conjunto de doenças neurodegenerativas progressivas que comprometem a memória, raciocínio, linguagem e comportamento. Entre elas, a demência vascular se destaca por estar fortemente ligada à saúde dos vasos sanguíneos do cérebro.

O estudo intitulado “Alto índice de massa corporal como fator de risco causal para demência vascular” (10.1210/clinem/dgaf662), conduzido por Liv Tybjærg Nordestgaard et al,  mostrou que o excesso de gordura corporal favorece alterações na circulação cerebral, reduzindo o fluxo sanguíneo e prejudicando a função cognitiva ao longo do tempo.

Esse processo ocorre de forma silenciosa, muitas vezes décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas clínicos, o que reforça a importância da prevenção precoce.

Genética ajuda a provar causa e efeito

Para estabelecer essa relação direta, os pesquisadores utilizaram a randomização mendeliana, um método genético que permite simular ensaios clínicos naturais. Nessa abordagem, variantes genéticas associadas a maior IMC são usadas como indicadores biológicos de exposição ao excesso de peso ao longo da vida.

Como essas variantes são distribuídas aleatoriamente desde o nascimento, o método reduz a interferência de fatores externos, fortalecendo a conclusão de que IMC elevado causa aumento do risco de demência, e não apenas caminha junto com ele.

A pressão arterial como elo central

Um achado crucial foi a identificação da hipertensão arterial como mediadora importante desse efeito. Grande parte do risco cognitivo associado à obesidade parece ocorrer porque o excesso de peso favorece a elevação persistente da pressão, comprometendo a integridade dos vasos cerebrais.

Isso sugere que controlar o peso e a pressão arterial pode atuar diretamente na proteção da função cerebral.

Oportunidade real de prevenção antes dos sintomas

Embora medicamentos para perda de peso já tenham sido testados em pessoas com Alzheimer em estágio inicial, os resultados não mostraram benefícios claros após o início dos sintomas. O estudo indica que o momento da intervenção é decisivo.

Atuar antes do surgimento do comprometimento cognitivo, especialmente na meia-idade, pode reduzir significativamente o risco de demência, sobretudo a de origem vascular.

Ao tratar fatores metabólicos como alvos cerebrais, a pesquisa reforça que a saúde do cérebro começa muito antes dos primeiros sinais de esquecimento.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.