Se a vida já existiu em Marte, seus vestígios podem estar escondidos onde menos se imaginava: no gelo profundo do planeta. Um estudo conduzido por cientistas do Centro Goddard da NASA e da Penn State sugere que moléculas essenciais à vida poderiam sobreviver por até 50 milhões de anos sob as condições geladas marcianas.
A pesquisa, publicada na revista Astrobiology, simulou em laboratório o ambiente de radiação e temperatura encontrado nas regiões polares de Marte. O objetivo foi testar a resistência de aminoácidos, blocos fundamentais das proteínas, quando aprisionados no gelo. Três conclusões se destacaram:
- Gelo puro protege melhor compostos orgânicos contra radiação;
- Misturas de gelo com solo marciano aceleram a degradação;
- Regiões ricas em gelo são alvos mais promissores do que rochas e sedimentos.
Quando o frio extremo se torna aliado da vida
Para reproduzir as condições marcianas, os pesquisadores congelaram fragmentos de E. coli em gelo de água pura e também em misturas contendo minerais semelhantes aos do solo de Marte. As amostras foram expostas a níveis de radiação equivalentes a dezenas de milhões de anos de bombardeio cósmico.
O resultado foi surpreendente: no gelo puro, mais de 10% dos aminoácidos resistiram à simulação completa. Em contrapartida, nas amostras misturadas com sedimentos, a destruição ocorreu até dez vezes mais rápido.
A explicação provável está na interação entre gelo e minerais. Quando há solo presente, pode formar-se uma película microscópica que facilita a ação da radiação sobre as moléculas orgânicas. Já no gelo sólido, as partículas geradas pela radiação permanecem mais confinadas, reduzindo o dano direto.
Implicações para futuras missões a Marte
Essas descobertas mudam o foco da busca por vida extraterrestre. Em vez de priorizar apenas rochas antigas ou argilas, missões futuras podem investir em perfuração de gelo limpo, especialmente em regiões de permafrost logo abaixo da superfície.
A própria Phoenix já havia confirmado, em 2008, a presença de gelo nas altas latitudes marcianas. Agora, os dados indicam que esse ambiente pode funcionar como uma verdadeira cápsula do tempo biológica.
Ambientes congelados surgem como cofres naturais da vida antiga
Os testes também incluíram temperaturas semelhantes às encontradas em Europa e Encélado, onde a degradação foi ainda mais lenta. Isso reforça o interesse científico nessas luas oceânicas, consideradas candidatas promissoras na busca por vida.
Desse jeito, o gelo, antes visto apenas como barreira, pode ser o melhor aliado para preservar assinaturas biológicas antigas. Se existiram microrganismos próximos à superfície marciana, há uma chance real de que seus rastros ainda estejam congelados, aguardando a próxima missão capaz de perfurar o local certo.

