Viajar ao espaço pode literalmente deformar o cérebro, aponta pesquisa

O espaço não muda só o corpo: o cérebro também se transforma (Imagem: Pixabay via Canva)
O espaço não muda só o corpo: o cérebro também se transforma (Imagem: Pixabay via Canva)

Viajar ao espaço é um feito extraordinário da humanidade, mas o corpo humano ainda paga um preço alto por essa conquista. Além da conhecida perda muscular, do enfraquecimento ósseo e das alterações nos fluidos corporais, pesquisas recentes revelam um impacto ainda mais profundo: a microgravidade modifica fisicamente o cérebro.

Um estudo publicado na revista científica PNAS analisou imagens de ressonância magnética de astronautas antes e depois de missões na Estação Espacial Internacional. Os resultados indicam que, longe da gravidade terrestre, o cérebro não apenas se desloca, mas também sofre deformações estruturais, com regiões sendo comprimidas e outras se expandindo.

Logo nos primeiros meses em órbita, já é possível observar mudanças claras, que se tornam mais intensas quanto maior o tempo de permanência no espaço. Para compreender melhor esse fenômeno, os cientistas compararam os astronautas com voluntários submetidos a um experimento em Terra que simula a redistribuição de fluidos corporais em direção à cabeça. Principais mudanças observadas incluem:

  • Deslocamento do cérebro para cima dentro do crânio;
  • Compressão das regiões superiores e posteriores;
  • Alongamento de áreas mais profundas;
  • Alterações em regiões ligadas ao equilíbrio e ao controle motor.

Quando o cérebro perde sua âncora natural

Microgravidade desloca e deforma o cérebro de astronautas (Imagem: CC0/ Domínio público)
Microgravidade desloca e deforma o cérebro de astronautas (Imagem: CC0/ Domínio público)

Na Terra, a gravidade ajuda a manter o cérebro estabilizado, enquanto o líquido cefalorraquidiano funciona como um amortecedor natural. Em microgravidade, esse equilíbrio se rompe. Como consequência, áreas como o córtex motor suplementar, essencial para o planejamento dos movimentos, podem se deslocar alguns milímetros, um valor pequeno, mas biologicamente significativo.

Além disso, quanto mais longa a missão espacial, mais acentuadas se tornam essas alterações. Astronautas que passaram cerca de um ano em órbita apresentaram mudanças mais evidentes do que aqueles em missões mais curtas.

Reflexos no equilíbrio e na coordenação

Viajar ao espaço pode alterar o equilíbrio e a coordenação cerebral (Imagem: Getty Imagems via Canva)
Viajar ao espaço pode alterar o equilíbrio e a coordenação cerebral (Imagem: Getty Imagems via Canva)

Essas transformações não são apenas anatômicas. Testes realizados após o retorno à Terra mostraram que astronautas com maiores deslocamentos cerebrais enfrentaram dificuldades para manter o equilíbrio e ajustar a coordenação motora. Isso reforça a ligação direta entre a estrutura cerebral e o desempenho físico.

Embora o cérebro tenda a recuperar sua posição original meses após o retorno ao planeta, ainda não se sabe se todas as funções voltam completamente ao normal.

O desafio das missões de longa duração

Com planos cada vez mais concretos para viagens a Marte e estadias prolongadas fora da Terra, entender essas alterações cerebrais é fundamental. A segurança, o desempenho cognitivo e a saúde neurológica dos astronautas dependem desse conhecimento.

Investigar como o cérebro humano se adapta ao espaço será decisivo para garantir que a exploração espacial continue avançando, sem comprometer quem se aventura além do nosso planeta.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.