Vacina e exame podem evitar câncer que ainda mata milhares de mulheres

Prevenção reduz mortes por câncer de colo do útero. (Foto: Pamai's Images via Canva)
Prevenção reduz mortes por câncer de colo do útero. (Foto: Pamai's Images via Canva)

O câncer de colo do útero continua sendo um dos maiores desafios da saúde feminina no Brasil. Mesmo sendo uma doença amplamente prevenível, ela ainda provoca a morte de cerca de 20 mulheres por dia no país. Esse cenário chama atenção para um problema que envolve não apenas o tratamento, mas principalmente a falta de prevenção e diagnóstico precoce.

Esse tipo de câncer se forma na região inferior do útero, conhecida como colo do útero, área que conecta o órgão à vagina. Na maioria dos casos, o desenvolvimento do tumor está associado à infecção persistente pelo HPV, o Papilomavírus Humano, um vírus muito comum transmitido principalmente pelo contato sexual.

De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer, o país pode registrar mais de 19 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028, colocando essa doença entre as mais frequentes entre as mulheres. O dado reforça a importância de ampliar as estratégias de prevenção e conscientização.

Por que esse câncer ainda é tão perigoso

Um dos maiores desafios do câncer cervical é que ele costuma evoluir de forma silenciosa. Nos estágios iniciais, a doença geralmente não provoca sintomas. Em alguns casos, podem se passar anos ou até décadas entre a infecção pelo HPV e o surgimento do tumor.

Por causa disso, especialistas reforçam a importância de realizar exames preventivos regularmente, mesmo na ausência de sintomas.

Quando os sinais aparecem, eles podem indicar que a doença já está em estágio mais avançado. Entre os sintomas mais comuns estão:

• sangramento vaginal fora do período da menstruação
• sangramento durante ou após relações sexuais
• corrimento vaginal persistente ou com odor intenso
• dor ou incômodo durante o ato sexual

Quando a doença avança, outros sinais podem aparecer, entre eles:

• dor na região da pelve ou na parte inferior das costas
• inchaço nas pernas
• cansaço intenso e persistente
• problemas no funcionamento dos rins

Qualquer sintoma persistente por mais de duas semanas deve ser investigado por um profissional de saúde.

Vacinação e exames são as principais formas de prevenção

Apesar da gravidade dos números, o câncer de colo do útero é considerado um dos tumores mais preveníveis. Isso acontece porque existem duas estratégias altamente eficazes para reduzir o risco da doença.

A primeira é a vacinação contra o HPV. Disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina protege contra os principais tipos do vírus associados ao câncer cervical.

No programa público de vacinação, o imunizante é indicado principalmente para:

crianças e adolescentes com idade entre 9 e 14 anos
• jovens até 19 anos em campanhas de atualização vacinal
• pessoas com imunossupressão ou condições específicas até 45 anos

Estudos mostram que 8 em cada 10 pessoas sexualmente ativas terão contato com o HPV ao longo da vida. Por isso, a vacinação é considerada a forma mais eficiente de proteção.

Além da vacina, a prevenção depende do rastreamento regular da doença.

Nova tecnologia promete melhorar o diagnóstico precoce

Tradicionalmente, o rastreamento do câncer cervical era realizado por meio do exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, que identifica alterações nas células do colo do útero.

No entanto, avanços científicos recentes indicam que o teste molecular para detecção do DNA do HPV apresenta maior sensibilidade para identificar mulheres com risco de desenvolver a doença.

Desde 2025, o Brasil iniciou uma transição gradual no sistema público de saúde, substituindo progressivamente o Papanicolau pelo teste de DNA do HPV como método primário de rastreamento.

Essa mudança permite detectar o vírus antes mesmo do surgimento de alterações celulares, aumentando as chances de prevenção e tratamento precoce.

Avanços no tratamento ampliam as chances de cura

Quando diagnosticado precocemente, o câncer de colo do útero possui altas taxas de tratamento bem-sucedido.

As abordagens terapêuticas podem incluir:

cirurgia
radioterapia
quimioterapia

Além dessas opções tradicionais, a medicina tem incorporado terapias mais modernas, como imunoterapia e tratamentos direcionados, que atuam de forma mais precisa sobre as células tumorais.

Esses avanços aumentam a possibilidade de tratamentos mais personalizados e com menor impacto sobre tecidos saudáveis.

O caminho para reduzir mortes pela doença

Apesar de todas as ferramentas disponíveis, especialistas destacam que o maior desafio continua sendo ampliar o acesso à prevenção.

A combinação de três estratégias é considerada essencial para reduzir a incidência da doença:

alta cobertura vacinal contra HPV
exames regulares de rastreamento
diagnóstico e tratamento precoces

Quando essas medidas são aplicadas de forma consistente, há potencial real de reduzir drasticamente a incidência e a mortalidade por câncer de colo do útero nas próximas décadas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn