Vacina contra herpes-zóster se mostra segura até em pacientes vulneráveis

Vacina herpes-zóster mostra boa tolerabilidade. (Foto: Getty Images via Canva)
Vacina herpes-zóster mostra boa tolerabilidade. (Foto: Getty Images via Canva)

Pacientes com doenças autoimunes sempre estiveram entre os grupos que mais geram cautela quando o assunto é vacinação. Isso ocorre porque o sistema imunológico já apresenta alterações e, muitas vezes, está sob efeito de medicamentos imunossupressores. No entanto, um novo estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) traz uma mudança importante nesse cenário.

Publicado na revista científica The Lancet Rheumatology (2026), o trabalho demonstrou que a vacina contra herpes-zóster é segura e eficaz em pacientes com doenças reumáticas autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide.

Resultados que desafiam antigas preocupações

A pesquisa acompanhou 1.192 pacientes com diferentes diagnósticos reumatológicos, incluindo indivíduos com doença ativa e em uso de terapias que reduzem a resposta imunológica.

Um dos achados mais relevantes foi que a vacinação não aumentou o risco de piora das doenças. A taxa de agravamento foi semelhante entre os grupos analisados:

  • 14% nos pacientes vacinados
  • 15% no grupo que recebeu placebo

Esse dado reforça que a imunização não desencadeia crises ou descompensações, uma das maiores preocupações clínicas até então.

Eficácia elevada mesmo em grupo vulnerável

Além da segurança, a vacina também apresentou alto nível de eficácia. Cerca de 90% dos participantes desenvolveram uma resposta imunológica considerada adequada após o esquema completo de duas doses.

Isso indica que, mesmo com o sistema imunológico comprometido, o organismo ainda é capaz de produzir anticorpos protetores em níveis satisfatórios.

Menos reações do que o esperado

Imunização não piora lúpus ou artrite reumatoide. (Foto: Mihaela Stoica's Images via Canva)
Imunização não piora lúpus ou artrite reumatoide. (Foto: Mihaela Stoica’s Images via Canva)

Outro ponto que chama atenção é o perfil de tolerabilidade. Pacientes com doenças reumáticas apresentaram menos efeitos adversos em comparação com indivíduos saudáveis.

Entre os efeitos observados, os mais comuns foram:

  • Dor no local da aplicação
  • Febre leve
  • Mal-estar passageiro

No entanto, esses sintomas ocorreram com menor frequência nesse grupo, o que reforça a boa tolerabilidade da vacina.

Tratamento pode influenciar a resposta

Apesar dos resultados positivos, o estudo também identificou que alguns medicamentos podem interferir na eficácia da vacinação. Em especial, terapias mais potentes podem reduzir a produção de anticorpos.

Por isso, em alguns casos, pode ser necessário:

  • Ajustar o momento da vacinação
  • Planejar o esquema de doses de forma individualizada

Essa abordagem personalizada é cada vez mais valorizada na prática clínica, principalmente em pacientes com condições complexas.

Impacto direto na prática médica

Os resultados publicados têm potencial para influenciar diretamente as recomendações médicas e políticas de saúde. Isso porque o estudo fornece evidências robustas de que a vacinação é segura mesmo em uma população considerada de alto risco.

Com isso, cresce a possibilidade de:

  • Ampliação das recomendações de vacinação
  • Maior segurança para médicos indicarem o imunizante
  • Expansão do acesso a pacientes mais jovens e imunocomprometidos

Um passo importante para a prevenção

A herpes-zóster, conhecida popularmente como cobreiro, pode causar dor intensa e complicações prolongadas, especialmente em pessoas com imunidade comprometida. Portanto, garantir proteção para esse grupo é essencial.

Atualmente, a vacina ainda está disponível principalmente na rede privada, o que limita o acesso. No entanto, com evidências científicas cada vez mais consistentes, a tendência é que seu uso se torne mais amplo no futuro.

Assim, o estudo representa um avanço importante na medicina preventiva, mostrando que mesmo pacientes com doenças autoimunes podem se beneficiar de estratégias de imunização seguras e eficazes.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn