Uso prolongado de omeprazol pode afetar imunidade e ossos, alerta pesquisa

Uso prolongado de omeprazol pode alterar minerais essenciais. (Foto: Getty Images via Canva)
Uso prolongado de omeprazol pode alterar minerais essenciais. (Foto: Getty Images via Canva)

Medicamentos usados para aliviar azia, refluxo e gastrite fazem parte da rotina de milhões de pessoas. No entanto, quando esse alívio se transforma em uso contínuo, o corpo pode começar a pagar um preço invisível. 

Uma pesquisa recente conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Paulo e da Faculdade de Medicina do ABC, publicada na revista científica ACS Omega, aponta que o uso prolongado de inibidores da bomba de prótons, como o omeprazol, pode interferir de forma significativa na absorção e na distribuição de minerais essenciais no organismo.

Esses fármacos atuam reduzindo a acidez do estômago, mecanismo eficiente para o controle de doenças gástricas. Porém, ao diminuir o ambiente ácido, o organismo passa a ter dificuldade para absorver nutrientes fundamentais para o equilíbrio metabólico, ósseo e imunológico.

Alterações minerais que vão além do estômago

No estudo intitulado “Avaliação da administração a longo prazo de inibidores da bomba de prótons (IBPs) na biodisponibilidade de nutrientes minerais.”, os pesquisadores Angerson Nogueira do Nascimento, Fernando Fonseca e Andréa Santana de Brito analisaram os efeitos do uso contínuo do omeprazol em modelos experimentais ao longo de diferentes períodos.

Os resultados mostraram alterações importantes na distribuição de minerais como ferro, cálcio, zinco, magnésio, cobre e potássio. Enquanto alguns desses elementos se acumularam no estômago, outros apresentaram desequilíbrios em órgãos como fígado e baço. No sangue, observou-se um aumento dos níveis de cálcio associado à redução de ferro, um cenário que pode favorecer problemas como osteoporose e anemia ao longo do tempo.

Além disso, foram identificadas mudanças relevantes em células do sistema imunológico, indicando que os impactos do medicamento não se limitam apenas ao trato digestivo.

Uso prolongado exige atenção redobrada

Pesquisa aponta impacto do omeprazol na saúde óssea. (Foto: Photo Images via Canva)
Pesquisa aponta impacto do omeprazol na saúde óssea. (Foto: Photo Images via Canva)

O omeprazol está disponível no mercado há mais de três décadas e, justamente por sua eficácia, passou a ser utilizado de forma banalizada. Muitas pessoas recorrem ao medicamento para sintomas leves e mantêm o uso por meses ou anos, sem reavaliação clínica.

Esse hábito se torna ainda mais preocupante diante da liberação da venda de omeprazol 20 mg sem prescrição, o que pode estimular a automedicação. Embora a indicação seja para uso curto, geralmente limitado a até 14 dias, a facilidade de acesso aumenta o risco de consumo contínuo e sem acompanhamento profissional.

O mesmo alerta vale para outros medicamentos da classe

Embora a pesquisa tenha utilizado o omeprazol, o alerta se estende a outros IBPs, como pantoprazol e esomeprazol. Essas moléculas atuam pelo mesmo mecanismo e, em alguns casos, apresentam ação mais potente e prolongada, o que pode intensificar os efeitos sobre a absorção de nutrientes.

Por isso, o uso racional é fundamental. Em determinados cenários, pode ser necessária a avaliação de suplementação mineral, sempre com orientação médica, para evitar deficiências silenciosas que se instalam ao longo do tempo.

Equilíbrio entre benefício e segurança

Os inibidores da bomba de prótons continuam sendo ferramentas terapêuticas valiosas. O ponto central, no entanto, é compreender que medicamentos eficazes também exigem critério. 

O uso consciente, por períodos adequados e com acompanhamento profissional, é essencial para preservar não apenas o estômago, mas o equilíbrio global do organismo.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.