Uso de remédios psiquiátricos dispara entre jovens trabalhadores no Brasil

Burnout impulsiona consumo de antidepressivos. (Foto: Getty Images via Canva)
Burnout impulsiona consumo de antidepressivos. (Foto: Getty Images via Canva)

O crescimento silencioso do uso de remédios psiquiátricos no Brasil revela muito mais do que uma mudança de comportamento individual. Ele expõe transformações profundas no mundo do trabalho, no modo de vida urbano e na forma como a saúde mental vem sendo tratada no ambiente corporativo. 

Dados recentes mostram que o consumo desses medicamentos segue em alta, especialmente entre adultos jovens em plena fase produtiva, indicando uma relação direta com o avanço do esgotamento emocional.

O que os números revelam sobre a saúde mental

Um estudo de abrangência nacional conduzido pela epharma revelou que as compras de medicamentos psiquiátricos cresceram 25% no período de 2022 a 2025. No último ano analisado, houve um aumento de 4,5%, reforçando a continuidade do avanço no consumo.

Além disso, a adesão ao Programa de Benefícios em Medicamentos cresceu 38% no mesmo período. Esse dado sugere não apenas maior consumo, mas também uma ampliação do acesso facilitado aos tratamentos, impulsionado por empresas que passaram a incluir a saúde mental como parte de suas políticas de benefícios.

Adultos jovens concentram a maior demanda

O perfil etário do consumo chama atenção. A maior parte das aquisições está concentrada entre pessoas de 26 a 45 anos, faixa que representa o núcleo da população economicamente ativa. Esse grupo enfrenta metas cada vez mais agressivas, insegurança financeira e jornadas prolongadas, fatores que impactam diretamente o equilíbrio emocional.

Esse cenário se reflete também nos indicadores oficiais. Registros do Ministério da Previdência Social apontam um crescimento de 493% nos pedidos de auxílio-doença por burnout entre 2021 e 2024. Paralelamente, estimativas da International Stress Management Association Brasil indicam que cerca de 30% dos brasileiros já apresentam sintomas compatíveis com a síndrome.

Burnout e a busca por suporte medicamentoso

A exaustão profissional aparece como um dos principais motores do aumento no uso de antidepressivos, classe que lidera o consumo de medicamentos psiquiátricos. O dado mais relevante é que o uso não ocorre apenas em quadros graves, mas também como estratégia para manter funcionalidade no dia a dia.

O tempo médio de utilização, entre 56 e 60 dias por pessoa, sugere tratamentos contínuos e não pontuais. Isso reforça a ideia de que o sofrimento psíquico deixou de ser episódico e passou a integrar a rotina de muitos trabalhadores.

Mudanças regulatórias ampliam o debate

A atualização da Norma Regulamentadora NR-1, prevista para entrar em vigor em 2026, deve ampliar ainda mais a visibilidade do tema. A nova diretriz torna obrigatória a identificação de riscos psicossociais, como estresse ocupacional e assédio, no ambiente corporativo.

Essa mudança tende a estimular diagnósticos mais precoces e, consequentemente, maior procura por tratamento, incluindo o uso de medicamentos.

Medicação não é solução isolada

Embora os remédios psiquiátricos tenham papel importante no controle dos sintomas, especialistas alertam que eles não atuam sobre as causas estruturais do adoecimento mental. Fatores como solidão, precarização das relações de trabalho e ausência de redes de apoio continuam presentes.

Portanto, o avanço no consumo desses medicamentos evidencia a urgência de políticas públicas integradas, que incluam educação emocional, prevenção e ambientes de trabalho mais saudáveis.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.