Um simples açúcar pode mudar o futuro do combate às superbactérias

Açúcar bacteriano vira novo alvo contra superbactérias. (Foto: Getty Images via Canva)
Açúcar bacteriano vira novo alvo contra superbactérias. (Foto: Getty Images via Canva)

A resistência a antibióticos avança em ritmo acelerado e já é considerada uma das maiores ameaças à saúde pública global. Infecções que antes eram facilmente tratáveis hoje desafiam médicos e sistemas de saúde, especialmente em ambientes hospitalares. Nesse cenário, uma descoberta científica recente aponta para uma solução inovadora: atacar um açúcar presente apenas nas bactérias.

O avanço foi descrito na revista Nature Chemical Biology, no estudo “Desvendando a pseudaminilação bacteriana com ferramentas de anticorpos pan-específicos”, liderado por Arthur H. Tang, publicado em fevereiro de 2026 (DOI: 10.1038/s41589-025-02114-9).

Um açúcar que as células humanas não possuem

O foco da pesquisa é o ácido pseudamínico, um açúcar produzido exclusivamente por bactérias. Embora tenha semelhança estrutural com moléculas presentes no organismo humano, ele não é sintetizado por células humanas, o que o torna um alvo terapêutico altamente seguro e específico.

Esse açúcar faz parte da superfície externa de diversas bactérias patogênicas e desempenha papel central na virulência, ajudando esses microrganismos a escapar das defesas naturais do corpo.

Como os anticorpos expõem as superbactérias

A estratégia desenvolvida pelos pesquisadores consistiu em criar anticorpos capazes de reconhecer esse açúcar bacteriano com alta precisão. Ao se ligarem ao ácido pseudamínico, esses anticorpos funcionam como um sinal de alerta, direcionando o sistema imunológico para identificar e destruir a bactéria invasora.

Nos experimentos pré-clínicos, essa abordagem conseguiu eliminar infecções causadas pela Acinetobacter baumannii multirresistente, um dos principais agentes de pneumonia hospitalar e infecções da corrente sanguínea.

Diferentemente dos antibióticos tradicionais, essa solução não tenta matar a bactéria diretamente. Em vez disso, potencializa a resposta imunológica, reduzindo o risco de surgimento de novas resistências.

Imunoterapia passiva e proteção hospitalar

A técnica utilizada é conhecida como imunoterapia passiva, na qual anticorpos prontos são administrados ao paciente. Isso permite uma resposta rápida, essencial em casos graves ou em pacientes imunocomprometidos.

Entre os principais benefícios dessa abordagem estão:

  • Ação imediata contra a infecção
  • Alta especificidade contra bactérias patogênicas
  • Possibilidade de uso preventivo em UTIs

Além do tratamento, os anticorpos também se tornam ferramentas valiosas para mapear a presença desses açúcares em diferentes bactérias, contribuindo para diagnósticos mais precisos.

Um novo caminho contra a resistência antimicrobiana

Os resultados apontam para um futuro promissor no combate às chamadas bactérias do grupo ESKAPE, responsáveis pela maioria das infecções hospitalares graves. A expectativa é que essa estratégia avance para aplicações clínicas nos próximos anos, representando um salto estratégico na luta contra a resistência antimicrobiana.

Ao explorar uma característica única das bactérias, a ciência demonstra que soluções inovadoras podem surgir fora do caminho tradicional dos antibióticos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) e une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica. Com rigor técnico e olhar atento, dedica-se a traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano, combatendo a desinformação com embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn