Terremotos invisíveis sacodem a Geleira do Apocalipse e preocupam cientistas

Terremotos ocultos no gelo revelam instabilidade na Antártida (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Terremotos ocultos no gelo revelam instabilidade na Antártida (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Sob a aparência estática e silenciosa da Antártida, um fenômeno inquietante vem ganhando atenção científica. Centenas de terremotos glaciais estão sendo registrados sob grandes geleiras, incluindo a temida Geleira Thwaites, conhecida como Geleira do Apocalipse. Esses tremores não são causados por placas tectônicas, mas pelo próprio gelo em movimento, um sinal claro de que algo está mudando de forma profunda no continente gelado.

Diferentemente dos terremotos convencionais, esses eventos sísmicos são produzidos quando enormes blocos de gelo se desprendem, colidem ou giram ao entrar em contato com o oceano. Como geram vibrações de baixa frequência, passam despercebidos por métodos tradicionais de monitoramento. Ainda assim, eles carregam informações valiosas sobre a dinâmica interna das geleiras e seus riscos futuros.

Logo após as primeiras análises, os cientistas identificaram padrões importantes, entre eles:

  • Relação direta com o avanço acelerado do gelo em direção ao mar;
  • Forte influência das condições oceânicas, e não apenas da temperatura do ar;
  • Concentração dos eventos em geleiras estrategicamente críticas.

O que os terremotos glaciais revelam sobre a Geleira do Apocalipse

A Geleira Thwaites ocupa uma posição-chave na Antártida Ocidental. Se entrar em colapso total, poderá contribuir para uma elevação global do nível do mar de até três metros. O registro de mais de duas centenas de terremotos glaciais nessa região indica que o gelo está sofrendo tensões mecânicas intensas, associadas ao seu rápido deslocamento.

Geleira do Apocalipse treme e acende alerta sobre o nível do mar (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Geleira do Apocalipse treme e acende alerta sobre o nível do mar (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Além disso, o período mais ativo desses tremores coincidiu com uma fase de aceleração anormal da língua de gelo, detectada por satélites. Esse comportamento reforça a hipótese de que o oceano está desempenhando um papel decisivo na desestabilização da geleira, ao corroer sua base de forma silenciosa.

Por que a Antártida se comporta diferente da Groenlândia?

Embora terremotos glaciais já sejam conhecidos no Hemisfério Norte, a Antártida apresenta características únicas. Ao contrário da Groenlândia, onde esses eventos seguem um padrão sazonal bem definido, os tremores antárticos não acompanham diretamente as estações do ano. Isso sugere mecanismos distintos, possivelmente ligados à circulação oceânica profunda e à interação entre gelo, água e rocha.

Em regiões como a geleira Pine Island, alguns terremotos ocorreram longe da costa, levantando novas perguntas sobre sua origem. Esse detalhe amplia os desafios científicos e indica que nem todos os processos envolvidos são plenamente compreendidos.

O impacto global de tremores que quase ninguém sente

Compreender os terremotos glaciais vai muito além da curiosidade científica. Esses eventos ajudam a reduzir incertezas nas projeções de elevação do nível do mar, um dos maiores riscos associados às mudanças climáticas. Além disso, oferecem uma nova ferramenta para monitorar a estabilidade das geleiras em tempo quase real.

Portanto, embora invisíveis para a maioria das pessoas, esses tremores no gelo representam um alerta claro: a Antártida está mudando, e suas consequências podem ser sentidas em todo o planeta.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.