A qualidade do sono vai muito além do silêncio e da escuridão. Para adultos com 65 anos ou mais, a temperatura do quarto pode ser um fator decisivo para proteger o coração durante a noite. Uma nova pesquisa indica que manter o ambiente a 24°C pode reduzir respostas fisiológicas de estresse enquanto o corpo descansa.
O estudo foi publicado em 2025 na revista BMC Medicine, com o título Effect of Nighttime Bedroom Temperature on Heart Rate Variability in Older Adults: An Observational Study, liderado por Fergus K. O’Connor (DOI: 10.1186/s12916-025-04513-0). A investigação analisou como diferentes temperaturas noturnas influenciam a variabilidade da frequência cardíaca, um importante marcador de equilíbrio do sistema nervoso autônomo.
Por que o calor afeta o coração durante o sono?
O organismo humano responde ao calor aumentando a frequência cardíaca. Esse mecanismo ajuda a dissipar o excesso de temperatura corporal, direcionando mais sangue para a pele. No entanto, quando o coração precisa trabalhar intensamente por períodos prolongados, ocorre maior sobrecarga cardiovascular.
Durante o sono, o corpo deveria entrar em estado de recuperação. Contudo, temperaturas elevadas podem:
- Manter a frequência cardíaca mais alta
- Reduzir a variabilidade da frequência cardíaca
- Aumentar o nível de estresse fisiológico
Em idosos, que já apresentam menor capacidade de adaptação térmica, esse esforço extra pode comprometer a recuperação noturna.
Como a pesquisa foi conduzida
O estudo acompanhou adultos mais velhos ao longo do verão australiano. Para garantir dados precisos em condições reais, os pesquisadores utilizaram:
- Rastreadores de atividade no pulso para monitorar a atividade cardíaca durante o sono
- Sensores ambientais instalados nos quartos para registrar continuamente a temperatura noturna
A análise revelou que ambientes mantidos em torno de 24°C estavam associados a menor probabilidade de respostas elevadas de estresse cardíaco.
Essa é uma das primeiras evidências diretas relacionando a temperatura do quarto à modulação autonômica noturna em idosos.
Mudanças climáticas e risco cardiovascular
As conclusões ganham ainda mais relevância diante do aumento das noites quentes, fenômeno intensificado pelas mudanças climáticas. Temperaturas elevadas não afetam apenas o conforto, mas também podem impactar a morbidade cardiovascular, especialmente em populações vulneráveis.
Atualmente, existem recomendações para temperaturas internas máximas durante o dia, geralmente em torno de 26°C. No entanto, faltam diretrizes específicas para o período noturno, quando o organismo precisa de condições ideais para recuperação fisiológica.
O que isso significa na prática
Para idosos, pequenos ajustes ambientais podem trazer benefícios importantes. Manter o quarto em temperatura moderada, próxima de 24°C, pode favorecer:
- Melhor recuperação autonômica
- Redução do estresse cardíaco
- Sono mais estável e restaurador
Embora o estudo seja observacional e não estabeleça causalidade direta, os resultados reforçam a importância de considerar o ambiente térmico como parte das estratégias de promoção da saúde cardiovascular.
Dormir bem não depende apenas de hábitos, mas também do clima ao redor. Em um cenário de aquecimento global, prestar atenção à temperatura do quarto pode se tornar uma medida simples e eficaz para proteger o coração na terceira idade.

