O glioblastoma é considerado um dos tumores cerebrais mais agressivos e difíceis de tratar, mesmo com os avanços da oncologia moderna. No entanto, uma pesquisa experimental sugere que uma combinação simples de dois suplementos amplamente conhecidos pode interferir em mecanismos biológicos centrais desse tipo de câncer. Os resultados iniciais chamam atenção por envolverem baixa toxicidade e alterações moleculares profundas no tumor, embora ainda não representem um tratamento aprovado.
O estudo foi conduzido por Indraneel Mittra e colaboradores, do Advanced Centre for Treatment, Research and Education in Cancer, na Índia, e publicado na revista científica BJC Reports, sob o título Resveratrol and Copper as a Novel Strategy to Modulate Glioblastoma Biology.
Como o estudo foi realizado
A pesquisa envolveu 20 pacientes diagnosticados com glioblastoma, todos já com cirurgia cerebral programada. Metade dos participantes recebeu, por aproximadamente 12 dias antes da cirurgia, um comprimido contendo resveratrol e cobre, administrado quatro vezes ao dia. Os demais pacientes não receberam os suplementos e atuaram como grupo de comparação.
Durante o procedimento cirúrgico, os pesquisadores coletaram amostras dos tumores para análise detalhada. O foco foi avaliar crescimento tumoral, inflamação, atividade imunológica, marcadores de agressividade e a presença de fragmentos de DNA livres, conhecidos por intensificar o comportamento maligno do tumor.
Alterações biológicas observadas nos tumores

As análises revelaram diferenças marcantes entre os tumores tratados e os não tratados. Entre os principais achados estiveram:
- Redução aproximada de 33% na atividade de crescimento tumoral
- Queda de 57% em biomarcadores associados à agressividade do câncer
- Diminuição de 41% nos sinais de pontos de controle imunológico
- Redução de 56% em marcadores ligados a células-tronco tumorais
- Quase eliminação de partículas de cromatina livre, fragmentos de DNA associados à inflamação tumoral
Esses resultados indicam que a combinação testada afetou mecanismos fundamentais da progressão do glioblastoma, sem relatos de efeitos adversos relevantes durante o curto período de uso.
Por que resveratrol e cobre juntos?
O resveratrol é um polifenol presente em alimentos como uvas e frutos vermelhos, conhecido por suas propriedades antioxidantes. No entanto, quando combinado ao cobre, ele passa a atuar de forma diferente, promovendo reações químicas capazes de degradar fragmentos de DNA liberados por células tumorais em morte.
Esses fragmentos, quando permanecem no ambiente tumoral, estimulam a inflamação e favorecem a agressividade do câncer. Ao removê-los, o microambiente do tumor se torna biologicamente menos favorável à progressão da doença.
Limitações e cuidados necessários
Apesar dos achados promissores, o próprio estudo ressalta importantes limitações. O número de participantes foi pequeno, o período de suplementação foi curto e não houve avaliação de impacto sobre a sobrevida ou progressão clínica da doença. Além disso, a interação dessa estratégia com tratamentos oncológicos padrão ainda não está totalmente esclarecida.
Por isso, os pesquisadores reforçam que essa abordagem é experimental e não substitui terapias consolidadas como cirurgia, radioterapia ou quimioterapia.
O que essa descoberta representa?
Embora preliminar, a pesquisa abre caminho para uma nova lógica terapêutica, focada não apenas em destruir células cancerígenas, mas em modificar o ambiente biológico que sustenta o tumor.
Estudos clínicos maiores e de longo prazo serão essenciais para determinar se essa estratégia pode, no futuro, integrar o tratamento do glioblastoma.

