Rover da NASA descobre novas pistas de água marciana

Em 26 de setembro de 2025, o Curiosity registrou cristas “boxwork” com a Mastcam (Imagem: NASA/JPL-Caltech/MSSS)
Em 26 de setembro de 2025, o Curiosity registrou cristas “boxwork” com a Mastcam (Imagem: NASA/JPL-Caltech/MSSS)

Do espaço, parecem teias de aranha colossais riscadas sobre o solo marciano. De perto, revelam uma história muito mais profunda. O rover Curiosity, operado pela NASA, documentou formações geológicas no Monte Sharp que reforçam a hipótese de circulação prolongada de água subterrânea em Marte.

As estruturas, chamadas de boxwork, formam redes de cristas que se entrelaçam por quilômetros. Com até dois metros de altura, elas se destacam em meio à paisagem árida e indicam que processos hídricos atuaram na região mesmo após o desaparecimento dos antigos lagos e rios superficiais. Três evidências chamaram atenção:

  • Fraturas rochosas preenchidas por minerais depositados pela água;
  • Presença de argilas e carbonatos, típicos de ambientes aquosos;
  • Texturas compatíveis com múltiplos episódios de infiltração subterrânea.

Fraturas que viraram monumentos minerais

A formação dessas cristas começou, provavelmente, quando a água penetrou fissuras profundas na rocha. Ao evaporar ou reagir quimicamente, deixou minerais que endureceram essas áreas internas. Com o passar do tempo, o vento removeu o material menos resistente, preservando apenas as partes reforçadas, criando o padrão em rede observado hoje.

O ponto decisivo está na posição dessas estruturas na encosta do Monte Sharp. Como as camadas mais altas correspondem a períodos mais recentes da história marciana, encontrar sinais de água ali sugere que o lençol freático permaneceu ativo por mais tempo do que indicavam modelos anteriores.

Nódulos, química e possíveis ingredientes da vida

Durante a exploração, o rover também identificou nódulos minerais arredondados, frequentemente associados à presença de água no passado. Curiosamente, essas formações aparecem tanto nas cristas quanto nas depressões entre elas, sugerindo diferentes fases de atividade hídrica.

Para aprofundar a investigação, amostras foram perfuradas e analisadas no laboratório interno do veículo. Os exames revelaram:

  • Minerais argilosos, formados em contato prolongado com água;
  • Carbonatos, que podem indicar interação entre água e dióxido de carbono;
  • Compostos examinados por técnicas capazes de detectar moléculas orgânicas à base de carbono.

Além disso, a região pertence a uma camada rica em sulfatos, minerais que se formam quando a água evapora. Esse detalhe reforça a ideia de ciclos repetidos de umidade e secagem ao longo de bilhões de anos.

Um passado mais habitável?

Em conjunto, os dados apontam para um cenário climático mais dinâmico do que se imaginava. Marte pode não ter se tornado um deserto congelado de forma abrupta. Em vez disso, pode ter mantido reservas subterrâneas de água capazes de sustentar ambientes potencialmente habitáveis por períodos prolongados.

À medida que o Curiosity continua sua jornada pelo Monte Sharp, cada nova amostra amplia a compreensão sobre a evolução ambiental do planeta vermelho e sobre as reais possibilidades de vida em seu passado remoto.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes