Roupa íntima inteligente rastreia gases e ajuda a diagnosticar doenças intestinais

Biossensor detecta hidrogênio liberado pela microbiota. (Foto: Reprodução / University of Maryland)
Biossensor detecta hidrogênio liberado pela microbiota. (Foto: Reprodução / University of Maryland)

Você sabia que a quantidade de gases que seu corpo produz pode revelar informações valiosas sobre a sua microbiota intestinal? Um novo dispositivo vestível promete transformar algo considerado constrangedor em um marcador objetivo de saúde digestiva.

Pesquisadores desenvolveram uma roupa íntima inteligente capaz de monitorar, de forma contínua e não invasiva, a liberação de gases intestinais. O estudo foi publicado na revista Biosensors and Bioelectronics: X, sob o título Smart underwear: A novel wearable for long-term monitoring of gut microbial gas production via flatus, liderado por Santiago Botasini, em dezembro de 2025 (DOI: 10.1016/j.biosx.2025.100699).

Como funciona a tecnologia

O dispositivo incorpora sensores capazes de detectar hidrogênio presente na flatulência, um dos principais subprodutos da fermentação realizada pelas bactérias intestinais. Esse gás funciona como um indicador direto da atividade metabólica da microbiota.

Diferentemente dos métodos tradicionais, que dependem de relatos subjetivos dos pacientes, a nova tecnologia permite:

  • Monitoramento contínuo por vários dias
  • Coleta de dados durante o sono
  • Medição objetiva da produção gasosa
  • Avaliação de respostas a mudanças na dieta

Essa abordagem representa um avanço importante na padronização de parâmetros ligados à fermentação intestinal.

O que os dados revelaram

Durante os testes clínicos, adultos saudáveis utilizaram o dispositivo por uma semana. Os resultados mostraram que a média diária de flatulências foi de 32 episódios por dia, número significativamente superior às estimativas anteriores, que giravam em torno de 14.

Além disso, foi observada ampla variação individual:

  • Mínimo registrado: 4 episódios por dia
  • Máximo registrado: 59 episódios por dia

Esses achados indicam que ainda não existe um consenso claro sobre o que pode ser considerado “normal” quando o assunto é produção de gases intestinais.

Sensibilidade à alimentação

Em uma segunda fase do estudo, os pesquisadores avaliaram como o dispositivo reagia a mudanças alimentares. Após o consumo de inulina, uma fibra prebiótica conhecida por estimular a fermentação bacteriana, o sensor identificou aumento na produção de hidrogênio em 94,7% dos participantes.

Esse dado reforça o potencial do equipamento para:

  • Avaliar respostas a prebióticos e probióticos
  • Monitorar intervenções dietéticas
  • Investigar distúrbios gastrointestinais
  • Mapear padrões individuais da microbiota

Um novo parâmetro para a saúde intestinal

A criação de um banco de dados populacional sobre produção de gases pode ajudar a estabelecer referências clínicas objetivas para a fermentação microbiana intestinal. Isso é particularmente relevante porque, até o momento, não há valores padronizados amplamente aceitos.

Com o avanço dessa tecnologia, torna-se possível estudar o microbioma intestinal com maior rigor científico, abrindo caminho para abordagens mais personalizadas em nutrição e gastroenterologia.

Além disso, o monitoramento prolongado pode auxiliar na identificação precoce de alterações metabólicas associadas a intolerâncias alimentares e distúrbios digestivos.

O que essa inovação representa para o futuro

A combinação entre biossensores vestíveis e análise da microbiota inaugura uma nova era na medicina preventiva. Ao transformar dados fisiológicos invisíveis em métricas mensuráveis, a tecnologia amplia nossa compreensão sobre o funcionamento do intestino.

Em síntese, a chamada “smart underwear” demonstra que até mesmo processos considerados triviais podem conter informações fundamentais sobre saúde metabólica.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn