Rochas no abismo marinho podem estar produzindo oxigênio no escuro

Cientistas investigam oxigênio escuro no fundo do oceano (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)
Cientistas investigam oxigênio escuro no fundo do oceano (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)

A ideia de produção de oxigênio sem luz sempre foi considerada improvável, já que esse gás é tradicionalmente associado à fotossíntese. No entanto, uma hipótese recente está desafiando esse princípio básico da biologia. Cientistas planejam uma nova expedição ao fundo do oceano para investigar o chamado “oxigênio escuro”, um possível subproduto de reações químicas envolvendo nódulos polimetálicos localizados em regiões abissais.

Caso confirmada, essa descoberta poderá reformular teorias sobre as origens da vida na Terra, além de alterar a forma como se avaliam os impactos ambientais da mineração em águas profundas.

A investigação se concentra na Zona Clarion-Clipperton, uma vasta área do oceano Pacífico, entre o Havaí e o México, conhecida por abrigar grandes quantidades desses nódulos ricos em metais estratégicos. Observa-se algumas questões fundamentais:

  • A possibilidade de eletrólise natural da água do mar;
  • Geração de oxigênio em ambientes sem qualquer incidência de luz;
  • Influência direta das propriedades elétricas dos nódulos metálicos.

Tecnologia extrema para explorar o limite do oceano

Para investigar o fenômeno com maior precisão, os cientistas desenvolveram novos módulos de pouso subaquáticos, projetados para operar a até 11 quilômetros de profundidade. Esses equipamentos suportam pressões mais de mil vezes superiores às da superfície, sendo comparáveis, em complexidade, a tecnologias usadas na exploração espacial.

Nódulos metálicos podem produzir oxigênio sem luz solar (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)
Nódulos metálicos podem produzir oxigênio sem luz solar (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)

Diferentemente de missões anteriores, os sensores foram especificamente desenhados para medir a respiração do fundo marinho, permitindo detectar variações mínimas nos níveis de oxigênio diretamente no sedimento.

Debate científico e interesses em jogo

A hipótese do oxigênio escuro gerou forte debate na comunidade científica. Alguns especialistas questionam se os sinais detectados anteriormente não seriam resultado de falhas metodológicas. Outros defendem que a descoberta exige novos experimentos antes de qualquer conclusão definitiva.

Esse debate ocorre em paralelo ao avanço da mineração em águas profundas, setor interessado nos metais presentes nos nódulos, amplamente utilizados em baterias e tecnologias de energia limpa. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com os impactos ecológicos em ecossistemas ainda pouco compreendidos.

Se os nódulos realmente produzem oxigênio, mesmo em pequenas quantidades, isso indicaria que processos geoquímicos podem sustentar formas de vida independentes da luz solar. Além disso, ampliaria o entendimento sobre ambientes extremos, inclusive fora da Terra, como oceanos subterrâneos em luas geladas.Os resultados da nova expedição poderão representar um marco na biologia, na oceanografia e na astrobiologia, abrindo uma janela inédita para o desconhecido.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.