Remédio para diabetes mostra efeito surpreendente em pacientes com câncer

Remédio para diabetes pode proteger o coração no câncer. (Foto: Getty Images via Canva)
Remédio para diabetes pode proteger o coração no câncer. (Foto: Getty Images via Canva)

Pacientes com câncer enfrentam desafios que vão muito além do tumor. Entre eles, as complicações cardíacas estão entre as mais graves e silenciosas, especialmente durante e após a quimioterapia. Mas, uma nova evidência científica sugere que um medicamento amplamente usado no tratamento do diabetes pode oferecer proteção significativa ao coração desses pacientes, melhorando a recuperação a longo prazo.

A descoberta foi apresentada no European Journal of Preventive Cardiology e traz novas perspectivas para a chamada cardio-oncologia, área que estuda os impactos do câncer e de seus tratamentos sobre o sistema cardiovascular.

Quando o tratamento oncológico afeta o coração

A quimioterapia é essencial para aumentar a sobrevida de milhões de pessoas com câncer. No entanto, determinados esquemas terapêuticos, como os que utilizam antraciclinas, estão associados a um risco elevado de insuficiência cardíaca. Estima-se que uma parcela relevante dos pacientes desenvolva alterações cardíacas permanentes, o que compromete a qualidade de vida e aumenta as taxas de hospitalização.

Diante desse cenário, a prevenção de danos ao coração tornou-se uma prioridade clínica, especialmente em pacientes que sobrevivem ao câncer, mas carregam sequelas cardiovasculares.

O papel dos inibidores de SGLT2 na proteção cardíaca

Avanço na cardio-oncologia usa remédio do diabetes. (Foto: Anna Ohanesian via Canva)
Avanço na cardio-oncologia usa remédio do diabetes. (Foto: Anna Ohanesian via Canva)

Os inibidores do cotransportador sódio-glicose 2, conhecidos como inibidores de SGLT2, são medicamentos já consagrados no tratamento do diabetes tipo 2. Nos últimos anos, eles também passaram a ser reconhecidos por seus benefícios cardiovasculares, incluindo a redução de hospitalizações por insuficiência cardíaca.

A nova pesquisa avaliou se esses efeitos positivos também poderiam beneficiar pacientes e sobreviventes de câncer, mesmo quando a insuficiência cardíaca está relacionada à quimioterapia.

O que os dados científicos revelam

A análise reuniu 13 estudos, envolvendo 88.273 pacientes e sobreviventes de câncer. Os resultados mostraram reduções expressivas nos desfechos cardiovasculares mais graves. Entre os principais achados, destacam-se:

  • Redução superior a 50% no risco de insuficiência cardíaca ou hospitalização
  • Queda de aproximadamente 71% no surgimento de novos casos de insuficiência cardíaca
  • Resultados ainda mais relevantes em pacientes com câncer de mama tratadas com antraciclinas

Esses dados indicam que o uso de inibidores de SGLT2 pode representar uma estratégia eficaz para proteger o coração durante e após o tratamento oncológico.

Impacto potencial na prática clínica

O estudo intitulado Impacto dos inibidores do cotransportador sódio-glicose 2 nos desfechos da insuficiência cardíaca em pacientes e sobreviventes de câncer: uma revisão sistemática e meta-análise, assinado por U Bhalraam et al, sugere que esses medicamentos podem, no futuro, integrar protocolos de cuidado em oncologia.

Embora mais pesquisas sejam necessárias para confirmar a indicação rotineira, os resultados reforçam o potencial dos inibidores de SGLT2 como uma ferramenta adicional na redução de complicações cardiovasculares em pacientes oncológicos.

A possibilidade de reaproveitar um medicamento já amplamente utilizado traz vantagens importantes, como segurança conhecida e fácil incorporação clínica. Essa descoberta representa um passo relevante rumo a tratamentos mais integrados, personalizados e focados na qualidade de vida de quem enfrenta o câncer.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn