Polilaminina recebe aval da Anvisa e renova esperança contra paralisia

Polilaminina começa a ser testada em humanos após aval da Anvisa. (Foto: Getty Images via Canva)
Polilaminina começa a ser testada em humanos após aval da Anvisa. (Foto: Getty Images via Canva)

Uma autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, na última segunda-feira (5), representa um marco silencioso, porém promissor, na pesquisa sobre lesões da medula espinhal. Após mais de duas décadas de investigação científica, uma proteína desenvolvida em laboratório começará a ser testada formalmente em humanos, abrindo novas perspectivas para pessoas que perderam movimentos após traumas graves.

O estudo clínico autorizado é de fase 1 e tem como foco principal avaliar a segurança da polilaminina, uma versão reorganizada da laminina, proteína essencial no desenvolvimento do sistema nervoso. Nesta etapa inicial, cinco pacientes com lesões medulares torácicas completas e recentes receberão a substância diretamente na região lesionada da medula espinhal, durante procedimento cirúrgico indicado.

Importância da pesquisa

Lesões completas da medula espinhal são historicamente associadas a prognósticos limitados. Após o trauma, o tecido nervoso entra em um ambiente altamente inibitório, marcado pela formação de cicatrizes que bloqueiam o crescimento dos neurônios. Por esse motivo, a recuperação espontânea costuma ser mínima ou inexistente.

A polilaminina surge justamente para modificar esse cenário. Diferentemente de abordagens que tentam apenas proteger os neurônios remanescentes, essa estratégia busca recriar um ambiente favorável à reconexão neural, algo raro no sistema nervoso central adulto.

Como a polilaminina atua na medula lesionada

Nova proteína busca estimular regeneração da medula espinhal. (Foto: True Creatives via Canva)
Nova proteína busca estimular regeneração da medula espinhal. (Foto: True Creatives via Canva)

A laminina natural atua como parte da matriz extracelular, funcionando como um suporte estrutural e funcional para as células nervosas. No desenvolvimento embrionário, ela orienta o crescimento dos axônios e a formação de circuitos neurais eficientes. Com o tempo, essa capacidade se perde.

A inovação da polilaminina está em sua organização tridimensional, restaurada artificialmente para que a proteína volte a desempenhar seu papel biológico. Quando aplicada diretamente na área lesionada, ela atua como um substrato permissivo, estimulando o crescimento de prolongamentos neuronais mesmo em um ambiente hostil.

Entre os efeitos observados em estudos pré-clínicos e experimentais estão:

  • Estímulo ao crescimento axonal
  • Redução do impacto das moléculas inibitórias da cicatriz
  • Melhora da comunicação entre neurônios danificados

O que já foi observado antes dos testes regulados

Antes da autorização regulatória, a polilaminina foi utilizada em protocolos acadêmicos experimentais com um número restrito de voluntários. Embora os dados ainda sejam preliminares, alguns participantes apresentaram recuperação parcial de funções motoras, algo considerado improvável em lesões completas.

Resultados semelhantes também foram observados em modelos animais, incluindo estudos longitudinais com cães portadores de lesão medular crônica, nos quais a substância demonstrou bom perfil de segurança e melhora progressiva da marcha, sem efeitos adversos graves.

Próximos passos e expectativas realistas

É importante destacar que esta fase do estudo não busca comprovar eficácia clínica, mas sim garantir que o uso da polilaminina seja seguro em humanos. Caso os resultados sejam positivos, o protocolo poderá avançar para as fases 2 e 3, nas quais a eficácia terapêutica será avaliada de forma controlada.

Além disso, a própria abordagem científica considera a polilaminina como parte de uma estratégia combinada, que no futuro poderá incluir fatores de crescimento, técnicas cirúrgicas específicas e reabilitação intensiva.

Ainda assim, o início desse estudo representa um avanço concreto na busca por soluções para um dos maiores desafios da neurociência clínica: restaurar conexões neurais após lesão medular severa.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.