A recuperação de movimentos após uma lesão medular é um dos maiores desafios da neurologia moderna. Nesse contexto, a polilaminina, desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro sob coordenação da pesquisadora Tatiana Sampaio, surge como uma proposta inovadora dentro da medicina regenerativa brasileira.
Embora relatos iniciais tenham despertado grande expectativa, é fundamental compreender que o tratamento ainda se encontra nas primeiras etapas de validação clínica. A ciência exige tempo, método e comprovação rigorosa.
Origem e aplicação terapêutica
A polilaminina foi concebida a partir da laminina, proteína estrutural presente naturalmente no organismo humano. Essa molécula participa da sustentação celular e desempenha papel importante na organização do tecido nervoso.
Observando sua função como matriz de suporte, a equipe liderada por Tatiana Sampaio desenvolveu uma versão modificada com potencial de aplicação em áreas lesionadas da medula espinhal. A ideia central é oferecer um ambiente mais favorável para que o tecido nervoso possa se reorganizar.
Com apoio do laboratório Cristália, a formulação avançou para os trâmites regulatórios necessários à avaliação clínica.
O que acontece quando a medula é lesionada
A medula espinhal funciona como via de comunicação entre cérebro e corpo. Quando ocorre um trauma, os axônios, responsáveis pela transmissão dos impulsos nervosos, são interrompidos. Em seguida, forma-se uma cicatriz que dificulta a reconexão neural.
É nesse cenário que a polilaminina poderia atuar. Aplicada diretamente na região afetada durante cirurgia, a substância teria potencial para:
• Criar um suporte estrutural temporário
• Favorecer o crescimento de novas extensões neuronais
• Estimular reorganização das conexões nervosas
Essa estratégia busca reduzir o ambiente inibitório e incentivar a plasticidade neural, especialmente nas fases iniciais após o trauma.
Evidências iniciais e interpretação cautelosa
Desde 2018, um número restrito de pacientes recebeu a aplicação experimental da substância. Dados preliminares indicam melhora funcional em parte dos casos acompanhados.
Entretanto, a evolução clínica após lesão medular não é totalmente previsível. Estudos anteriores mostram que uma parcela dos pacientes pode apresentar recuperação parcial espontânea ao longo do tempo, mesmo quando a lesão é inicialmente classificada como completa.
Por isso, ainda não é possível atribuir de forma definitiva os ganhos observados exclusivamente ao uso da polilaminina. Ensaios clínicos controlados são essenciais para diferenciar efeito terapêutico real de evolução natural da condição.
Fase 1: foco absoluto na segurança
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início do estudo clínico de fase 1. Essa etapa tem objetivo específico: avaliar segurança e tolerabilidade.
O protocolo prevê:
• Inclusão de cinco pacientes
• Lesão torácica aguda recente
• Aplicação única intramedular
• Monitoramento contínuo de possíveis eventos adversos
Entre os pontos de atenção está a possibilidade de resposta imunológica à substância, uma vez que qualquer produto biológico pode desencadear reações inesperadas.
Somente após a conclusão desta fase será possível avançar para estudos maiores que investiguem eficácia clínica de forma estruturada.
Expectativas futuras
O desenvolvimento de um novo medicamento envolve diversas etapas que podem se estender por anos. A polilaminina representa um avanço importante na pesquisa biomédica nacional e coloca o trabalho de Tatiana Sampaio em destaque no campo da regeneração neural.
Ainda assim, a consolidação de qualquer terapia depende de evidências robustas, revisão científica e replicação dos resultados. O momento atual é de análise criteriosa e acompanhamento rigoroso.
Se as próximas fases confirmarem segurança e benefício clínico, a polilaminina poderá inaugurar uma nova perspectiva no tratamento da lesão medular. Até lá, o caminho é guiado pela ciência, passo a passo.

