A ideia de que o fígado gorduroso surge apenas pelo consumo de alimentos gordurosos ainda é comum, mas a ciência mostra um cenário mais complexo. A esteatose hepática, caracterizada pelo acúmulo excessivo de triglicerídeos nas células do fígado, está fortemente associada ao excesso calórico e ao consumo elevado de açúcares e carboidratos refinados, embora outros componentes da dieta também desempenhem papel relevante.
Nos estágios iniciais, a condição pode ser reversível. No entanto, quando persiste, pode evoluir para inflamação hepática, fibrose, cirrose e até câncer. Por isso, entender o que realmente alimenta esse processo é essencial.
Por que açúcar e carboidratos simples sobrecarregam o fígado?

Diferente do que muitos imaginam, a gordura ingerida nem sempre é direcionada diretamente ao fígado. O órgão tem a capacidade de produzir gordura internamente a partir do excesso de glicose e frutose, por meio da chamada lipogênese.
Essa relação foi amplamente discutida no estudo Dietary carbohydrates and fats in nonalcoholic fatty liver disease, publicado na Revista Nacional de Gastroenterologia e Hepatologia e conduzido por Hannele Yki-Järvinen e colaboradores. A pesquisa demonstra que dietas ricas em açúcares adicionados, bebidas adoçadas e carboidratos refinados estimulam a produção de gordura hepática de forma mais eficiente do que muitos tipos de gordura alimentar.
Em outras palavras, o fígado transforma o excesso de açúcar em gordura, especialmente quando há baixa demanda energética e resistência à insulina.
A gordura da dieta importa? Sim, mas de forma diferente
Embora o açúcar seja um fator central na gordura hepática, isso não significa que a gordura das carnes vermelhas seja inofensiva. O consumo frequente de carnes bovinas, sobretudo em versões mais gordurosas e processadas, está associado a impactos negativos na saúde cardiovascular.
Uma ampla meta-análise publicada no European Heart Journal, intitulada Red meat consumption and risk of cardiovascular diseases and diabetes e conduzida por WenmingShi e colaboradores, avaliou dados populacionais em larga escala e identificou associação consistente entre maior consumo de carnes vermelhas e aumento do risco de doenças cardiovasculares, aterosclerose e diabetes tipo 2.
Além da gordura saturada: inflamação e metabolismo

O impacto das carnes vermelhas não se explica apenas pela gordura saturada. Componentes como heme-ferro e metabólitos derivados da interação com a microbiota intestinal estão associados a processos inflamatórios e alterações metabólicas que favorecem o desenvolvimento de placas ateroscleróticas nas artérias.
Além disso, dietas ricas em gordura saturada tendem a elevar o LDL-colesterol, um fator diretamente ligado à progressão da aterosclerose, especialmente quando combinadas com baixo consumo de fibras e alimentos vegetais.
O que realmente faz diferença para fígado e coração
A ciência aponta que o maior risco surge da combinação de fatores:
Alimentos que mais prejudicam:
- Açúcares adicionados e bebidas adoçadas
- Carboidratos refinados e ultraprocessados
- Carnes vermelhas e processadas em excesso
- Dietas hipercalóricas pobres em fibras
Alimentos com efeito protetor:
- Carboidratos complexos e integrais
- Fibras alimentares e prebióticos
- Gorduras insaturadas como azeite e ômega-3
- Frutas, legumes e verduras
Esse padrão alimentar melhora a sensibilidade à insulina, reduz inflamação sistêmica e diminui tanto o acúmulo de gordura no fígado quanto o risco cardiovascular.
O que fica claro após as evidências
- A gordura no fígado está mais ligada ao excesso de açúcar e carboidratos refinados do que à gordura alimentar isolada.
- Carnes vermelhas não devem ser inocentadas, pois seu consumo frequente está associado a maior risco de aterosclerose e doenças cardíacas.
- O padrão alimentar como um todo é o principal determinante da saúde do fígado e do coração.

