Pesquisadores revelam quem mais prejudica fígado e coração na dieta moderna

Fígado e coração sofrem com dieta desequilibrada. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Fígado e coração sofrem com dieta desequilibrada. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

A ideia de que o fígado gorduroso surge apenas pelo consumo de alimentos gordurosos ainda é comum, mas a ciência mostra um cenário mais complexo. A esteatose hepática, caracterizada pelo acúmulo excessivo de triglicerídeos nas células do fígado, está fortemente associada ao excesso calórico e ao consumo elevado de açúcares e carboidratos refinados, embora outros componentes da dieta também desempenhem papel relevante.

Nos estágios iniciais, a condição pode ser reversível. No entanto, quando persiste, pode evoluir para inflamação hepática, fibrose, cirrose e até câncer. Por isso, entender o que realmente alimenta esse processo é essencial.

Por que açúcar e carboidratos simples sobrecarregam o fígado?

Açúcar em excesso vira gordura dentro do fígado. (Foto: Getty Images via Canva)
Açúcar em excesso vira gordura dentro do fígado. (Foto: Getty Images via Canva)

Diferente do que muitos imaginam, a gordura ingerida nem sempre é direcionada diretamente ao fígado. O órgão tem a capacidade de produzir gordura internamente a partir do excesso de glicose e frutose, por meio da chamada lipogênese.

Essa relação foi amplamente discutida no estudo Dietary carbohydrates and fats in nonalcoholic fatty liver disease, publicado na Revista Nacional de Gastroenterologia e Hepatologia e conduzido por Hannele Yki-Järvinen e colaboradores. A pesquisa demonstra que dietas ricas em açúcares adicionados, bebidas adoçadas e carboidratos refinados estimulam a produção de gordura hepática de forma mais eficiente do que muitos tipos de gordura alimentar.

Em outras palavras, o fígado transforma o excesso de açúcar em gordura, especialmente quando há baixa demanda energética e resistência à insulina.

A gordura da dieta importa? Sim, mas de forma diferente

Embora o açúcar seja um fator central na gordura hepática, isso não significa que a gordura das carnes vermelhas seja inofensiva. O consumo frequente de carnes bovinas, sobretudo em versões mais gordurosas e processadas, está associado a impactos negativos na saúde cardiovascular.

Uma ampla meta-análise publicada no European Heart Journal, intitulada Red meat consumption and risk of cardiovascular diseases and diabetes e conduzida por WenmingShi  e colaboradores, avaliou dados populacionais em larga escala e identificou associação consistente entre maior consumo de carnes vermelhas e aumento do risco de doenças cardiovasculares, aterosclerose e diabetes tipo 2.

Além da gordura saturada: inflamação e metabolismo

Consumo frequente de carne vermelha impacta as artérias. (Foto: Pixabay via Canva)
Consumo frequente de carne vermelha impacta as artérias. (Foto: Pixabay via Canva)

O impacto das carnes vermelhas não se explica apenas pela gordura saturada. Componentes como heme-ferro e metabólitos derivados da interação com a microbiota intestinal estão associados a processos inflamatórios e alterações metabólicas que favorecem o desenvolvimento de placas ateroscleróticas nas artérias.

Além disso, dietas ricas em gordura saturada tendem a elevar o LDL-colesterol, um fator diretamente ligado à progressão da aterosclerose, especialmente quando combinadas com baixo consumo de fibras e alimentos vegetais.

O que realmente faz diferença para fígado e coração

A ciência aponta que o maior risco surge da combinação de fatores:

Alimentos que mais prejudicam:

  • Açúcares adicionados e bebidas adoçadas
  • Carboidratos refinados e ultraprocessados
  • Carnes vermelhas e processadas em excesso
  • Dietas hipercalóricas pobres em fibras

Alimentos com efeito protetor:

  • Carboidratos complexos e integrais
  • Fibras alimentares e prebióticos
  • Gorduras insaturadas como azeite e ômega-3
  • Frutas, legumes e verduras

Esse padrão alimentar melhora a sensibilidade à insulina, reduz inflamação sistêmica e diminui tanto o acúmulo de gordura no fígado quanto o risco cardiovascular.

O que fica claro após as evidências

  • A gordura no fígado está mais ligada ao excesso de açúcar e carboidratos refinados do que à gordura alimentar isolada.
  • Carnes vermelhas não devem ser inocentadas, pois seu consumo frequente está associado a maior risco de aterosclerose e doenças cardíacas.
  • O padrão alimentar como um todo é o principal determinante da saúde do fígado e do coração.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.