Pesquisa espacial revela como preservar músculos na velhice

ISS vira laboratório do envelhecimento muscular. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
ISS vira laboratório do envelhecimento muscular. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

A perda progressiva de massa e força muscular é uma das principais ameaças à autonomia na velhice. Conhecida como sarcopenia, essa condição afeta uma parcela expressiva da população idosa e está associada a quedas, incapacidade funcional e aumento da mortalidade. Apesar de sua relevância clínica, ainda não existem tratamentos farmacológicos específicos para combatê-la.

Agora, um estudo inovador mostra que o ambiente de microgravidade do espaço pode acelerar esse processo, oferecendo uma oportunidade única para compreender em semanas um fenômeno que, na Terra, leva décadas para se manifestar.

Por que a microgravidade imita o envelhecimento muscular?

Na ausência da gravidade, os músculos sofrem uma redução drástica de estímulos mecânicos. Como consequência, ocorre um enfraquecimento rápido, semelhante ao observado no envelhecimento. Esse efeito transforma o voo espacial em um modelo biológico valioso para estudar a degeneração muscular relacionada à idade.

A pesquisa intitulada “A microgravidade acelera a degeneração do músculo esquelético: insights funcionais e transcriptômicos de um modelo de laboratório em chip de músculo da ISS”, publicada na revista científica Stem Cell Reports, explorou exatamente esse fenômeno.

Músculos humanos cultivados e enviados ao espaço

O estudo, liderado por Maddalena Parafati e Siobhan Malany, da Universidade da Flórida, utilizou microtecidos musculares esqueléticos produzidos a partir de biópsias humanas. As amostras vieram de dois grupos distintos:

  • doadores jovens e fisicamente ativos
  • doadores idosos e sedentários

Esses microtecidos foram cultivados em um laboratório automatizado e enviados à Estação Espacial Internacional. O sistema permitia alimentação controlada, monitoramento contínuo e até estimulação elétrica, simulando exercícios musculares.

Declínio rápido da força e da qualidade muscular

Antes do voo, os tecidos musculares de jovens apresentavam quase o dobro da força de contração em comparação aos tecidos de idosos. No entanto, após apenas duas semanas em microgravidade, essa vantagem praticamente desapareceu.

Além disso, o conteúdo de proteínas musculares, inicialmente maior nos tecidos jovens, caiu para níveis semelhantes aos observados nos tecidos envelhecidos. Paralelamente, foram detectadas alterações significativas na expressão gênica, especialmente nos músculos mais jovens, afetando processos essenciais para a função muscular.

Estimulação elétrica como possível estratégia protetora

Microgravidade imita envelhecimento dos músculos. (Foto: Ryan King 999 via Canva)
Microgravidade imita envelhecimento dos músculos. (Foto: Ryan King 999 via Canva)

Um achado relevante foi o efeito parcialmente protetor da estimulação elétrica. Ao induzir contrações musculares artificiais, os pesquisadores conseguiram atenuar algumas das alterações moleculares provocadas pela microgravidade.

Esse resultado sugere que simular exercício, mesmo em condições extremas, pode ajudar a preservar a saúde muscular. Esse conhecimento é valioso tanto para missões espaciais de longa duração quanto para estratégias futuras contra a sarcopenia na Terra.

O que esse estudo muda na ciência do envelhecimento

Ao demonstrar que a sarcopenia pode ser modelada rapidamente no espaço, a pesquisa abre caminho para:

  • testes mais rápidos de terapias contra perda muscular
  • melhor compreensão dos mecanismos biológicos do envelhecimento
  • desenvolvimento de intervenções mais eficazes para idosos

O espaço, nesse contexto, deixa de ser apenas um destino de exploração e passa a ser um laboratório acelerado do envelhecimento humano.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.