Pesquisa brasileira aponta redução de até 99% no crescimento de tumores em testes experimentais

Tecnologia leva quimioterapia direto às células tumorais. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Tecnologia leva quimioterapia direto às células tumorais. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Uma pesquisa desenvolvida no Brasil investiga uma nova forma de tornar o tratamento contra o câncer mais direcionado e potencialmente menos agressivo ao organismo. O trabalho foi apresentado em uma tese da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e explora o uso de nanopartículas para transportar medicamentos da quimioterapia diretamente até células tumorais.

O estudo, intitulado “Síntese e caracterização de nanopartícula de sílica mesoporosa contendo doxorrubicina e citarabina para aplicação biológica”, foi desenvolvido pela pesquisadora Kristiane Fanti Del Pino, em 2024, sob orientação do professor Marco Antonio Utrera Martines.

A proposta da pesquisa é utilizar nanopartículas de sílica, estruturas microscópicas milhares de vezes menores que um fio de cabelo, como “carregadores” capazes de levar medicamentos da quimioterapia até as células cancerígenas com maior precisão.

Entre os medicamentos utilizados no estudo estão a Doxorrubicina e a Citarabina, dois quimioterápicos amplamente utilizados no tratamento de diferentes tipos de câncer.

Como a tecnologia funciona

Na quimioterapia convencional, os medicamentos são distribuídos por todo o organismo. Esse processo ajuda a atingir células cancerígenas, mas também pode afetar células saudáveis, provocando muitos dos efeitos colaterais associados ao tratamento.

A tecnologia investigada na tese busca contornar esse problema. As nanopartículas funcionam como pequenos veículos capazes de transportar o medicamento de forma mais direcionada até o tumor.

Segundo o estudo, o planejamento do tamanho e da estrutura dessas partículas permitiu manter a atividade anticâncer dos medicamentos mesmo com concentrações menores das substâncias.

Nos experimentos descritos na pesquisa, o sistema demonstrou capacidade de inibir o crescimento de células tumorais e reduzir significativamente o desenvolvimento dos tumores em modelos experimentais. Em alguns testes, os pesquisadores observaram inibição do crescimento tumoral próxima de 99% em comparação ao grupo de controle, além de diminuição do peso e do volume das estruturas tumorais analisadas.

Especialistas ressaltam que esse tipo de resultado indica que o tumor cresceu muito menos ou diminuiu nos experimentos, mas não significa necessariamente a eliminação completa da doença. Os testes ainda fazem parte de etapas pré-clínicas realizadas em laboratório, e novas fases de pesquisa serão necessárias antes de qualquer aplicação em pacientes.

Linha de pesquisa investigada em vários países

O uso de nanopartículas para transportar medicamentos faz parte de uma área científica conhecida como nanomedicina, que vem sendo estudada por pesquisadores em diferentes países.

Um exemplo é o estudo publicado em 2016, liderado pela pesquisadora Camila P. Silveira, intitulado “Doxorubicin-Functionalized Silica Nanoparticles Incorporated into a Thermoreversible Hydrogel and Intraperitoneally Administered Result in High Prostate Antitumor Activity and Reduced Cardiotoxicity of Doxorubicin”. Nesse trabalho, nanopartículas de sílica contendo Doxorrubicina foram incorporadas em um hidrogel termorreversível e administradas por via intraperitoneal.

Os resultados mostraram atividade antitumoral significativa em tumores de próstata, além de redução da cardiotoxicidade associada ao medicamento.

Mais recentemente, em 2025, pesquisadores liderados por Bahareh Nezhadhossein publicaram o estudo “Efficacy of urolithin B-Loaded mesoporous silica nanoparticles modified with graphene quantum Dots against MCF-7 breast Cancer cells”. O trabalho analisou nanopartículas de sílica carregadas com urolitina B em testes com células de câncer de mama.

Os experimentos indicaram aumento da atividade anticâncer e maior destruição de células tumorais em ambiente de laboratório.

Próximos passos da pesquisa

Apesar dos resultados promissores observados em diferentes estudos, especialistas destacam que tecnologias desse tipo ainda precisam passar por várias etapas antes de serem aplicadas em pacientes.

Entre os próximos passos estão novos testes laboratoriais, estudos pré-clínicos mais amplos e, posteriormente, ensaios clínicos em humanos.

Se confirmada em etapas futuras, a estratégia pode contribuir para tornar a quimioterapia mais direcionada, aumentando a eficácia do tratamento e reduzindo o impacto sobre células saudáveis.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn