A ideia de que a autoconsciência seria uma característica restrita a mamíferos sempre dominou a ciência cognitiva. No entanto, um pequeno peixe de recife está ajudando a reescrever essa narrativa. Pesquisadores da Universidade Metropolitana de Osaka observaram comportamentos surpreendentes no peixe-limpador (Labroides dimidiatus) durante experimentos com espelhos.
O estudo, publicado na Scientific Reports, revelou que esses peixes não apenas reagem ao próprio reflexo, mas também parecem compreender a relação entre seus movimentos e a imagem refletida, um fenômeno conhecido como teste de contingência.
Os cientistas marcaram os peixes com sinais que imitavam parasitas. Ao serem expostos ao espelho pela primeira vez, muitos indivíduos rapidamente utilizaram o reflexo para localizar e tentar remover a marca. Os resultados chamaram atenção por vários motivos:
- O comportamento de raspagem surgiu, em média, após 82 minutos;
- Alguns peixes reagiram na primeira hora;
- Estudos anteriores registravam respostas semelhantes apenas após vários dias.
Espelho como ferramenta de investigação
O teste do espelho é amplamente utilizado para avaliar autorreconhecimento animal. Espécies que conseguem identificar que o reflexo corresponde ao próprio corpo demonstram um nível elevado de processamento cognitivo.
Nesse experimento, a ordem tradicional foi invertida: os peixes foram marcados antes de verem o espelho. Isso pode ter acelerado a resposta, pois já havia uma sensação corporal de algo incomum antes da confirmação visual. Contudo, o comportamento mais intrigante surgiu dias depois.
Camarão como experimento cognitivo
Alguns peixes passaram a utilizar pedaços de camarão como “ferramentas experimentais”. Eles pegavam o alimento, nadavam até o espelho e o soltavam deliberadamente diante da superfície refletora. Em seguida, acompanhavam atentamente o movimento do camarão no reflexo, tocando o vidro repetidamente.
Esse comportamento é descrito como teste de contingência exploratório. Em vez de usar apenas o próprio corpo, os peixes manipularam um objeto externo para investigar como o espelho funcionava. A estratégia lembra condutas já observadas em golfinhos e raias-manta, espécies frequentemente citadas em debates sobre inteligência animal.
Cognição em peixes redefine limites da autoconsciência
Os achados sugerem que a autoconsciência pode estar mais amplamente distribuída na árvore da vida do que se imaginava. Em vez de ser uma característica exclusiva de grandes cérebros ou de mamíferos altamente sociais, ela pode emergir em diferentes linhagens evolutivas ao longo do tempo.
Além disso, compreender a cognição em peixes traz implicações relevantes para o bem-estar animal, para os modelos que investigam a evolução da inteligência, para pesquisas em neurociência comparada e até para o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. Ao revelar comportamentos flexíveis e autorreferenciais em um peixe de poucos centímetros, o estudo amplia o debate científico sobre o que realmente significa reconhecer a si mesmo.

