O avanço da poluição plástica marinha já não pode ser medido apenas pela quantidade de lixo visível nas praias. Em locais praticamente intocados pela presença humana permanente, resíduos industriais estão se integrando ao próprio solo. Foi o que pesquisadores observaram na Ilha da Trindade, onde fragmentos conhecidos como rochas de plástico vêm sendo incorporados aos sedimentos, inclusive em áreas de reprodução da vida marinha.
O trabalho foi conduzido por cientistas da Universidade Estadual Paulista e publicado na Marine Pollution Bulletin. Ao longo de cinco anos de monitoramento, a equipe analisou como esses materiais se formam, se deslocam e acabam soterrados, especialmente nos ninhos da tartaruga-verde (Chelonia mydas). Entre os principais pontos identificados estão:
- Formação de blocos híbridos compostos por plástico fundido e sedimentos naturais;
- Perda de até 40% do volume original por erosão;
- Dispersão de microplásticos para diferentes praias da ilha;
- Enterramento recorrente em ninhos de tartarugas marinhas.
Da atividade marítima ao interior dos ninhos
As análises laboratoriais identificaram que grande parte do material é composta por polietileno de alta densidade (PEAD), frequentemente utilizado em cordas de pesca e transporte marítimo. Pigmentos com cobre, responsáveis pela coloração esverdeada, também foram detectados, sugerindo origem ligada a atividades náuticas.
Com o tempo, a ação das ondas e do calor transforma esses resíduos em estruturas rígidas que se misturam à areia e às rochas locais. À medida que sofrem abrasão, liberam partículas menores que se espalham pela faixa costeira. A morfologia dos fragmentos revelou um dado importante:
- Formas arredondadas indicam maior exposição à água do mar;
- Fragmentos angulares tendem a permanecer soterrados, sobretudo nos ninhos escavados durante a desova.
Esse padrão sugere que o plástico está sendo incorporado ao ciclo sedimentar da praia, comportando-se de maneira semelhante a grãos minerais naturais.
Risco ecológico e marca do Antropoceno
O soterramento de plástico em profundidades de até 10 centímetros levanta preocupações ambientais e geológicas. Do ponto de vista ecológico, há possíveis impactos na incubação dos ovos, seja por alterações térmicas, seja pela liberação de contaminantes.
Além disso, a fragmentação contínua aumenta a disponibilidade de microplásticos no ecossistema, o que amplia o risco de ingestão por peixes, aves e crustáceos.
Sob a ótica geológica, esses materiais artificiais podem permanecer preservados por longos períodos, tornando-se potenciais marcadores da influência humana na Terra, conceito associado ao Antropoceno.
Mesmo protegida como unidade de conservação e sem ocupação civil permanente, a Ilha da Trindade evidencia que correntes oceânicas transportam impactos globais a áreas remotas. O estudo reforça, portanto, a urgência de políticas eficazes de gestão de resíduos plásticos, especialmente no setor pesqueiro, e de estratégias contínuas de monitoramento ambiental em regiões sensíveis.

