Papagaios usam sons exclusivos como “nomes” para identificar cada filhote

Papagaios criam sons únicos para identificar cada filhote desde cedo (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Papagaios criam sons únicos para identificar cada filhote desde cedo (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Dar nomes não é apenas um hábito humano. Papagaios selvagens desenvolvem sons exclusivos para identificar cada filhote, em um sistema de comunicação sofisticado que lembra a forma como famílias humanas nomeiam seus bebês. A descoberta amplia o entendimento sobre inteligência animal, cognição social e evolução da linguagem.

O comportamento foi descrito no estudo “Individual vocal labels in parrots”, publicado na revista científica PLOS Computational Biology, em 27 de julho de 2023, por Grace Smith-Vidaurre et al. (DOI: 10.1371/journal.pcbi.1011231). A pesquisa demonstrou que esses sons funcionam como assinaturas vocais aprendidas socialmente, e não como vocalizações aleatórias ou geneticamente determinadas.

Logo nos primeiros dias de vida, os filhotes passam a reconhecer e responder ao som específico que lhes é direcionado. Esse aprendizado ocorre dentro do ninho, a partir da repetição consistente dos chamados feitos pelos pais.

Para entender o fenômeno, os pesquisadores analisaram gravações contínuas ao longo de todo o ciclo reprodutivo. Softwares especializados identificaram padrões acústicos sutis, revelando que cada filhote recebe um “rótulo sonoro” único, mantido de forma estável ao longo do desenvolvimento. Entre os principais achados do estudo, destacam-se:

  • Aprendizado vocal social, e não biológico;
  • Reconhecimento individual precoce, desde o nascimento;
  • Redução de confusões em ninhos com vários filhotes;
  • Maior eficiência no cuidado parental.

Como os papagaios transformam som em identidade social?

Estudo revela que papagaios usam “nomes vocais” aprendidos socialmente (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Estudo revela que papagaios usam “nomes vocais” aprendidos socialmente (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Os experimentos de troca de ovos entre ninhos mostraram que os filhotes adotam os sons do ambiente social em que crescem, reforçando o papel do aprendizado ativo.

Esse tipo de identificação vocal traz vantagens evolutivas importantes. Ao reconhecer cada filhote individualmente, os pais conseguem direcionar alimento, responder rapidamente a pedidos de cuidado e reduzir erros que poderiam comprometer a sobrevivência. Em grupos maiores, esse mecanismo também fortalece a coesão social e a cooperação.

Embora outros animais, como golfinhos, elefantes e morcegos, também utilizem sinais sonoros individuais, os papagaios se destacam pelo alto grau de plasticidade vocal. Nesse caso, o som não expressa emoção nem estado físico: ele representa um indivíduo específico, um passo relevante rumo a uma comunicação simbólica rudimentar.

O estudo também alerta para impactos ambientais. Ruídos urbanos, isolamento social e cativeiro podem interferir no aprendizado vocal, com implicações diretas para conservação, reabilitação e reintrodução de aves na natureza.

Ao revelar que dar “nomes” é uma estratégia compartilhada por diferentes espécies sociais, a pesquisa reforça que a comunicação complexa não é exclusividade humana, mas uma solução evolutiva moldada pela vida em grupo.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.