A imagem clássica da ruptura da Pangeia envolve um cenário dramático: calor acumulado sob o supercontinente, pressão crescente nas profundezas e, por fim, a separação que moldou o mapa atual do planeta. No entanto, novas evidências científicas sugerem que essa narrativa pode estar simplificada demais.
Um estudo publicado na Earth and Planetary Science Letters revisitou um dos principais argumentos dessa hipótese: a ideia de que o manto terrestre teria ficado excepcionalmente quente devido ao isolamento térmico provocado pela massa continental unificada. Para testar essa teoria, pesquisadores analisaram um indicador-chave do passado profundo: a espessura da crosta oceânica formada nos primeiros estágios da abertura do Atlântico e do Índico. Os resultados não apontam para um superaquecimento global. Pelo contrário, revelam um quadro mais equilibrado:
- Parte da crosta inicial media cerca de 5,5 quilômetros, abaixo da média atual;
- Outra parcela alcançava aproximadamente 6,7 quilômetros, levemente acima do padrão moderno;
- Espessuras significativamente maiores foram limitadas a regiões específicas.
Crosta oceânica como pista da temperatura do manto
Quando placas tectônicas se afastam, material do manto ascende, sofre fusão parcial e gera magma que, ao se solidificar, forma nova crosta oceânica. Quanto maior a temperatura do manto, maior o volume de magma produzido e mais espessa a crosta resultante.
Se o interior da Terra estivesse amplamente superaquecido durante a fragmentação da Pangeia, seria esperado encontrar crostas muito acima da média atual de aproximadamente 6,1 quilômetros. Contudo, as estimativas indicam aumentos térmicos discretos, em muitos casos entre 9 °C e 15 °C. Mesmo nas áreas do Atlântico Central, onde a crosta atingiu valores mais elevados, os cálculos não sustentam a hipótese de um aquecimento extremo em escala planetária.
Um planeta em resfriamento gradual
Além disso, os dados revelam uma tendência sutil relacionada à idade da crosta. A variação observada é compatível com o chamado resfriamento secular da Terra, processo natural de perda de calor ao longo de bilhões de anos. As taxas estimadas coincidem com projeções globais da evolução térmica do planeta, reforçando a ideia de estabilidade relativa, e não de um evento térmico abrupto.
Diante desse panorama, a ruptura da Pangeia parece ter resultado de uma combinação de elementos:
- Tensões acumuladas nas placas tectônicas;
- Fragilidades estruturais pré-existentes na litosfera continental;
- Variações regionais na dinâmica do manto.
Assim, em vez de um único gatilho associado a calor extremo, o processo pode ter sido impulsionado por interações complexas e graduais no interior do planeta.
Compreender o manto terrestre na separação da Pangeia é essencial porque os ciclos de formação e fragmentação de supercontinentes influenciam o clima, o nível do mar e até a evolução da vida. Ao sugerir um cenário menos dramático, o novo estudo reforça que transformações geológicas gigantescas podem emergir de mudanças térmicas relativamente moderadas nas profundezas da Terra.

