Oscilar de peso repetidamente ao longo da vida pode causar efeitos metabólicos mais profundos do que se imaginava. Muito além da balança, o chamado efeito sanfona parece comprometer mecanismos internos importantes para a saúde, especialmente em mulheres. Uma pesquisa brasileira recente revelou que esse padrão está associado a pior perfil cardiometabólico e a menor atividade da gordura marrom, um tecido que ajuda o corpo a gastar energia.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas e publicado na revista científica Nutrition Research, sob o título “Weight cycling in women: a challenge for cardiometabolic health, not brown fat”, conduzido por Laura Ramos Gonçalves Gomes et al, com publicação em dezembro de 2025 (DOI: 10.1016/j.nutres.2025.11.003).
O papel pouco conhecido da gordura marrom
A gordura marrom, também chamada de tecido adiposo marrom, exerce uma função oposta à da gordura branca. Enquanto a gordura branca armazena energia, a gordura marrom queima glicose e lipídios para produzir calor, contribuindo para o gasto energético e para o equilíbrio metabólico.
Esse tecido é especialmente rico em mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia nas células, o que explica sua coloração mais escura e sua alta atividade metabólica. Nos adultos, a gordura marrom se concentra principalmente na região do pescoço e da parte superior do tórax, sendo ativada principalmente pelo frio.
Como o estudo foi conduzido
A pesquisa avaliou 121 mulheres entre 20 e 41 anos, com diferentes faixas de índice de massa corporal (IMC). As participantes foram divididas em dois grupos principais:
- Mulheres sem histórico de efeito sanfona
- Mulheres com histórico de três ou mais ciclos de perda intencional e recuperação não planejada de peso nos últimos quatro anos
Para medir a atividade da gordura marrom, foi utilizado um protocolo de exposição controlada ao frio, mantendo a temperatura em 18 °C, suficiente para estimular o tecido sem provocar tremores. A ativação da gordura marrom foi avaliada por termografia infravermelha, técnica capaz de identificar regiões corporais com maior produção de calor.
Além disso, foram analisados indicadores como percentual de gordura corporal, gordura visceral, glicemia, perfil lipídico e pressão arterial.
O que os resultados revelaram
Inicialmente, os dados mostraram que mulheres com histórico de efeito sanfona apresentavam menor atividade da gordura marrom e piores indicadores metabólicos. No entanto, análises estatísticas mais aprofundadas revelaram um ponto crucial: o efeito sanfona não age sozinho.
O principal fator associado à redução da atividade da gordura marrom foi o acúmulo progressivo de gordura corporal, especialmente da gordura visceral. Em ciclos repetidos de emagrecimento e reganho, o organismo tende a recuperar peso predominantemente na forma de gordura, enquanto a massa muscular é menos preservada.
Com o tempo, esse processo favorece um metabolismo mais eficiente em armazenar energia e menos eficiente em gastá-la, o que compromete tanto a saúde cardiometabólica quanto a atividade da gordura marrom.
Implicações para a saúde feminina
Os achados reforçam que estratégias de emagrecimento focadas apenas na perda rápida de peso podem gerar efeitos adversos a longo prazo. Do ponto de vista metabólico, é mais relevante buscar:
- Redução sustentável do percentual de gordura
- Preservação da massa muscular
- Mudanças comportamentais duradouras
- Abordagem multiprofissional
Embora a gordura marrom possa ser estimulada por fatores como atividade física e redução da adiposidade, ela não deve ser vista como solução isolada para emagrecimento. Seu papel mais importante está na proteção metabólica, ajudando a reduzir o risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

