Ômega-3 pode reduzir em 43% eventos cardíacos em pacientes renais

Óleo de peixe reduz risco cardiovascular em hemodiálise. (Foto: Pamai's Images via Canva)
Óleo de peixe reduz risco cardiovascular em hemodiálise. (Foto: Pamai's Images via Canva)

Pessoas com insuficiência renal avançada enfrentam um risco significativamente maior de desenvolver complicações cardiovasculares. Infartos, acidentes vasculares cerebrais e outros problemas cardíacos estão entre as principais causas de mortalidade nesse grupo. Nesse contexto, uma nova pesquisa indica que a suplementação com óleo de peixe rico em ômega-3 pode oferecer uma proteção importante.

Os resultados foram publicados no The New England Journal of Medicine em 2026 e mostram que o uso diário de quatro gramas de óleo de peixe esteve associado a uma redução expressiva de eventos cardiovasculares graves em pacientes submetidos à hemodiálise.

Estudo internacional avaliou mais de mil pacientes

A pesquisa, conhecida como estudo PISCES, reuniu 1.228 participantes em tratamento de diálise distribuídos em 26 centros clínicos na Austrália e no Canadá. O objetivo foi investigar se a suplementação com ácidos graxos ômega-3, presentes naturalmente no óleo de peixe, poderia reduzir complicações cardiovasculares nesse grupo de alto risco.

Os participantes foram divididos em dois grupos:

• um grupo recebeu suplementação diária de óleo de peixe
• outro grupo recebeu placebo

O suplemento utilizado continha EPA (ácido eicosapentaenoico) e DHA (ácido docosahexaenoico), dois ácidos graxos associados a efeitos anti-inflamatórios e benefícios cardiovasculares.

Redução significativa de eventos cardíacos graves

Os dados revelaram uma diferença significativa entre os grupos analisados. Pacientes que utilizaram o suplemento apresentaram uma redução de aproximadamente 43% na ocorrência de eventos cardiovasculares graves.

Entre os eventos analisados no estudo estavam:

infarto do miocárdio
acidente vascular cerebral (AVC)
morte de causa cardíaca
amputações relacionadas a doenças vasculares

Essa redução é considerada especialmente relevante porque pacientes em hemodiálise apresentam risco cardiovascular extremamente elevado e poucas intervenções demonstraram benefícios consistentes nesse cenário.

Por que pacientes renais podem se beneficiar mais?

Pesquisas anteriores indicam que pessoas em diálise frequentemente apresentam níveis mais baixos de EPA e DHA no organismo em comparação com a população geral. Essa deficiência pode contribuir para processos inflamatórios e alterações vasculares que aumentam o risco de doenças cardiovasculares.

Nesse contexto, a reposição desses ácidos graxos por meio da suplementação pode ajudar a:

reduzir inflamações sistêmicas
melhorar a função vascular
diminuir a formação de placas nas artérias

Esses mecanismos podem explicar, ao menos em parte, a redução significativa de eventos cardiovasculares observada no estudo.

Resultados específicos para pacientes em hemodiálise

É importante destacar que os benefícios identificados na pesquisa se aplicam especificamente a pacientes submetidos à hemodiálise devido à insuficiência renal. Portanto, os resultados não devem ser automaticamente extrapolados para pessoas saudáveis ou para indivíduos com outros tipos de doença.

O ensaio clínico contou com colaboração internacional e foi conduzido por pesquisadores de diferentes centros de pesquisa. A investigação foi publicada no The New England Journal of Medicine em 2026, um dos periódicos médicos mais influentes do mundo.

Possível nova estratégia para reduzir risco cardiovascular

Pacientes com doença renal avançada enfrentam desafios terapêuticos importantes, especialmente quando se trata da prevenção de problemas cardiovasculares. Dessa forma, a identificação de uma intervenção relativamente simples, como a suplementação com óleo de peixe, pode representar uma estratégia adicional para reduzir riscos.

Ainda assim, especialistas ressaltam que novas pesquisas poderão aprofundar a compreensão sobre os mecanismos envolvidos e avaliar possíveis benefícios em outros grupos de pacientes.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn