O mundo pelos olhos de cães e gatos é bem diferente do que imaginamos 

Cães e gatos enxergam o ambiente de forma diferente à noite. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Para um cachorro ou gato, a sala da sua casa não tem exatamente as mesmas cores que você enxerga. E aquela situação em que o animal parece ficar completamente perdido quando a iluminação muda também tem uma explicação ligada ao funcionamento dos olhos.

A visão de cães e gatos foi moldada para necessidades diferentes das humanas. Em vez de depender principalmente de uma grande variedade de cores, esses animais possuem adaptações que favorecem a percepção de movimento, contraste e luminosidade, especialmente em ambientes pouco iluminados.

Um mundo com menos cores, mas cheio de movimento

Os cães não enxergam o mundo em preto e branco, como durante muito tempo se acreditou. Eles possuem visão dicromática, baseada principalmente em dois tipos de cones, células da retina responsáveis pela percepção das cores.

Isso significa que determinadas tonalidades que parecem muito diferentes para nós podem ser visualmente semelhantes para um cachorro. Em compensação, o sistema visual canino é bastante eficiente para detectar movimentos e alterações no ambiente.

Nos gatos, a visão também apresenta características diferentes da humana. A retina possui grande quantidade de bastonetes, células especializadas em condições de pouca luminosidade. Por isso, a percepção visual felina é particularmente adaptada ao período de baixa luz.

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O segredo escondido atrás dos olhos dos gatos

Como o tapete lúcido melhora a visão noturna dos gatos na penumbra. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Existe uma estrutura que ajuda a explicar a famosa capacidade dos gatos de se movimentarem quando quase não conseguimos enxergar nada: o tapete lúcido, uma camada localizada atrás da retina que devolve parte da luz para as células fotossensíveis.

É justamente esse mecanismo que também está por trás daquele brilho característico que aparece nos olhos dos gatos quando um feixe de luz os atinge no escuro.

Entretanto, existe uma diferença importante: gatos não enxergam no escuro absoluto. Eles precisam de alguma quantidade de luz para que seus olhos formem imagens. O que conseguem fazer é aproveitar uma iluminação muito menor do que a necessária para a visão humana.

Por isso, quando uma luz é apagada repentinamente, o animal pode apresentar uma mudança imediata de comportamento. Não significa necessariamente que ele esteja com medo. Em poucos instantes, a quantidade de informação visual disponível simplesmente despenca.

As cores também mudam a experiência dos animais

A percepção das cores depende dos cones presentes na retina. Nos cães, essa organização faz com que azuis e amarelos sejam mais distinguíveis, enquanto algumas tonalidades que para nós estão claramente separadas podem parecer mais próximas.

Já os gatos também possuem uma capacidade de discriminação cromática diferente da humana, ao mesmo tempo em que apresentam uma retina fortemente adaptada à visão em baixa luminosidade.

Um estudo publicado em 23 de agosto de 2026 na revista científica Veterinary Ophthalmology investigou especificamente a resposta pupilar de cães expostos a luzes de diferentes cores. A pesquisa, liderada por Minju Kim, avaliou 20 cães saudáveis e observou respostas diferentes conforme o comprimento de onda utilizado. A luz azul provocou maior constrição pupilar e esteve associada à maior eficiência durante o procedimento analisado.

É importante destacar que esse trabalho estudou respostas fisiológicas à luz, e não uma comparação direta de quais cores os cães conseguem perceber conscientemente.

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Por que eles parecem tão diferentes no escuro?

A explicação está na combinação de várias características da visão animal. Bastonetes em grande quantidade, estruturas refletoras e adaptações da retina ajudam cães e, principalmente, gatos a aproveitar melhor a pouca luz.

Além disso, a visão não trabalha sozinha. Olfato, audição, memória espacial e percepção de movimento também fornecem informações ao animal.

Assim, quando um gato atravessa tranquilamente um ambiente que parece completamente escuro para nós, ele não está literalmente enxergando sem luz. Seus olhos simplesmente conseguem extrair muito mais informação de uma iluminação extremamente fraca.

No fim, cães e gatos não possuem uma visão simplesmente “melhor” ou “pior” que a humana. Eles têm um sistema visual adaptado às necessidades de cada espécie, capaz de transformar luz, movimento e contraste em uma percepção do mundo bastante diferente da nossa.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes