Novo teste simples pode revolucionar a forma de detectar endometriose

Endometriose pode ser identificada anos antes com exame simples. (Foto: Getty Images via Canva)
Endometriose pode ser identificada anos antes com exame simples. (Foto: Getty Images via Canva)

Durante décadas, o diagnóstico da endometriose esteve associado a anos de dor, incerteza clínica e cirurgias invasivas. Agora, um avanço científico promissor indica que esse cenário pode mudar radicalmente. Um novo exame de sangue, baseado na análise de proteínas plasmáticas, surge como alternativa para identificar a doença de forma precoce, segura e acessível.

A endometriose é uma condição inflamatória crônica em que tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora da cavidade uterina, principalmente na região pélvica. Essa alteração provoca dor intensa, inflamação persistente e prejuízo significativo à qualidade de vida. Apesar de sua alta prevalência, o diagnóstico costuma ser tardio, frequentemente levando entre seis e oito anos após o início dos sintomas.

A limitação do diagnóstico cirúrgico

Historicamente, a laparoscopia foi considerada o método mais confiável para confirmar a doença. No entanto, trata-se de um procedimento invasivo, oneroso e que pode gerar efeitos irreversíveis, especialmente quando repetido ao longo do tempo. Esse modelo diagnóstico expõe milhares de mulheres a riscos desnecessários antes mesmo de um tratamento efetivo.

Diante desse desafio, pesquisadores passaram a investigar soluções menos agressivas, capazes de identificar a endometriose ainda em seus estágios iniciais.

O estudo que mudou o rumo da investigação

Biomarcadores no sangue ajudam a detectar endometriose. (Foto: Getty Images via Canva)
Biomarcadores no sangue ajudam a detectar endometriose. (Foto: Getty Images via Canva)

O avanço foi descrito em um estudo científico conduzido por pesquisadores da Universidade de Melbourne, em parceria com o Royal Women’s Hospital e a empresa australiana de tecnologia médica Proteomics International. A pesquisa utilizou técnicas avançadas de proteômica, uma área que analisa o conjunto de proteínas presentes no plasma sanguíneo.

Nesse estudo, amostras de sangue foram coletadas de pessoas com e sem diagnóstico de endometriose. A análise revelou diferenças consistentes na concentração de proteínas plasmáticas, sugerindo a presença de biomarcadores específicos da doença. Após a fase inicial, os resultados foram validados em uma coorte independente com centenas de participantes.

Como resultado, os pesquisadores identificaram 10 biomarcadores proteicos com alta capacidade preditiva para o diagnóstico da endometriose, superando limitações de marcadores antigos, como o CA-125, considerado pouco confiável quando usado isoladamente.

Impacto para a saúde da mulher

A possibilidade de diagnosticar a endometriose por meio de um simples exame de sangue representa um avanço estrutural na medicina feminina. O diagnóstico antecipado pode permitir intervenções mais eficazes, reduzir a progressão da doença e evitar múltiplas cirurgias ao longo da vida.

Além disso, a adoção desse método tende a ampliar o acesso ao diagnóstico, especialmente em regiões onde procedimentos cirúrgicos especializados são limitados. Trata-se de um passo decisivo rumo a um cuidado mais preventivo, preciso e menos traumático.

Embora novas etapas regulatórias ainda sejam necessárias, o estudo aponta para um futuro em que a endometriose deixa de ser uma condição invisível e passa a ser reconhecida de forma mais rápida, científica e humana.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.