NASA identifica colisão estelar poderosa escondida em galáxia extremamente pequena

Colisão de estrelas de nêutrons é detectada em galáxia minúscula (Imagem: Raio X: NASA/CXC/Penn State Univ./S. Dichiara; RI: NASA/ESA/STScI)
Colisão de estrelas de nêutrons é detectada em galáxia minúscula (Imagem: Raio X: NASA/CXC/Penn State Univ./S. Dichiara; RI: NASA/ESA/STScI)

O universo acaba de revelar mais um de seus fenômenos mais violentos e intrigantes. Astrônomos identificaram uma colisão entre duas estrelas de nêutrons em um ambiente inesperado: uma galáxia extremamente pequena e pouco luminosa, localizada a cerca de 4,7 bilhões de anos-luz da Terra. A descoberta pode ajudar a esclarecer dois mistérios importantes da astrofísica moderna.

O estudo será publicado na revista The Astrophysical Journal Letters e foi liderado por Simone Dichiara, da Universidade Estadual da Pensilvânia. O evento cósmico recebeu o nome GRB 230906A, após ser detectado inicialmente como uma intensa explosão de raios gama. Para identificar o fenômeno, os cientistas combinaram dados de diversos observatórios espaciais. Entre eles estão:

  • Telescópio Espacial de Raios Gama Fermi, responsável pela detecção inicial da explosão;
  • Observatório de Raios X Chandra, que ajudou a localizar a origem do sinal;
  • Observatório Neil Gehrels Swift, usado para acompanhamento do evento;
  • Telescópio Espacial Hubble, que revelou a galáxia hospedeira extremamente fraca.

Essa colaboração permitiu reconstruir um evento cósmico ocorrido bilhões de anos atrás.

Estrelas de nêutrons entre os objetos mais extremos do cosmos

As estrelas de nêutrons surgem quando estrelas massivas esgotam seu combustível nuclear e entram em colapso gravitacional após uma supernova. O resultado é um objeto extremamente compacto, com apenas alguns quilômetros de diâmetro, mas contendo massa comparável ou superior à do Sol.

Quando duas dessas estrelas orbitam uma à outra, elas podem eventualmente se fundir. Esse processo libera enormes quantidades de energia, frequentemente detectadas como explosões de raios gama (GRBs), os eventos mais luminosos conhecidos no universo.

Até recentemente, essas fusões eram observadas principalmente em galáxias grandes ou de tamanho médio. A nova descoberta, no entanto, mostra que tais colisões também podem ocorrer em galáxias muito pequenas e difíceis de detectar.

Uma colisão dentro de outra colisão cósmica

A localização do evento revelou um cenário ainda mais complexo. A galáxia onde ocorreu a fusão está imersa em uma gigantesca corrente de gás com cerca de 600 mil anos-luz de extensão.

Essa estrutura provavelmente se formou quando galáxias colidiram entre si há centenas de milhões de anos, arrancando gás e poeira para o espaço intergaláctico. Esse material acabou alimentando novas regiões de formação estelar, que ao longo do tempo produziram sistemas binários de estrelas massivas, incluindo o par de estrelas de nêutrons que finalmente colidiu.

A origem de elementos preciosos no universo

Além de explicar o local incomum da explosão, a descoberta também pode ajudar a resolver outro enigma cósmico: a origem de elementos pesados como ouro e platina.

Durante a fusão de estrelas de nêutrons, ocorre uma série de reações nucleares extremamente energéticas capazes de produzir esses elementos. O material é então lançado ao espaço e pode enriquecer o gás interestelar, contribuindo para a formação de novas gerações de estrelas e planetas.

Se eventos como o GRB 230906A ocorrerem fora dos centros galácticos, isso pode explicar por que astrônomos encontram ouro e outros elementos pesados em regiões distantes das galáxias.

Peças de um quebra-cabeça cósmico

A descoberta também sugere que algumas explosões de raios gama aparentemente isoladas podem, na verdade, ocorrer em galáxias muito pequenas ou fracas para serem detectadas facilmente.

Ao combinar observações de diferentes telescópios espaciais, os cientistas conseguem identificar esses ambientes ocultos e reconstruir a história de eventos cósmicos extremamente energéticos.

Assim, cada nova detecção ajuda a revelar como o universo produz seus elementos mais raros e como eventos extremos moldam a evolução das galáxias.

*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ).

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes