Não era Nipah: outro vírus de morcegos pega cientistas de surpresa

Casos suspeitos de Nipah escondiam vírus diferente. (Foto: TrueCreatives via Canva)
Casos suspeitos de Nipah escondiam vírus diferente. (Foto: TrueCreatives via Canva)

Casos suspeitos de vírus Nipah levaram médicos a investigar um surto em Bangladesh. Os pacientes apresentavam sintomas graves, incluindo febre e alterações neurológicas, mas os exames laboratoriais descartaram o patógeno conhecido. A investigação, no entanto, não terminou ali. 

Análises genéticas mais detalhadas revelaram que outro vírus transmitido por morcegos estava infectando humanos, sem ser detectado pelos testes de rotina. O achado indica que doenças semelhantes ao Nipah podem ter origens diferentes e levanta preocupações sobre vírus zoonóticos circulando fora do radar da vigilância epidemiológica.

Vírus ignorado começa a chamar atenção

Pesquisadores identificaram o ortoreovírus Pteropine, um vírus zoonótico associado a morcegos, em pacientes hospitalizados com sintomas respiratórios e neurológicos graves. Embora o quadro clínico fosse praticamente indistinguível da infecção pelo vírus Nipah, todos os testes específicos para Nipah deram negativo.

A confirmação veio por meio de análises genéticas avançadas, que demonstraram infecção humana ativa, e não apenas contato prévio com o vírus. Os resultados foram publicados na revista científica Emerging Infectious Diseases, no estudo “Reovírus de morcego como causa de doença respiratória aguda e encefalite em humanos, Bangladesh, 2022–2023”, de Sharmin Sultana, publicado em 2025 (DOI: 10.3201/eid3112.250797).

Seiva de tamareira crua é elo crítico na transmissão

Um dado chamou atenção dos pesquisadores: todos os pacientes haviam consumido recentemente seiva de tamareira crua. Essa bebida tradicional é frequentemente contaminada por secreções de morcegos, considerados reservatórios naturais de múltiplos vírus perigosos.

Até então, o consumo da seiva era fortemente associado ao vírus Nipah. Agora, o novo estudo indica que o risco é mais amplo, envolvendo outros vírus zoonóticos capazes de causar doenças graves em humanos.

Tecnologia revela vírus que exames comuns não enxergam

A detecção do vírus só foi possível graças ao Sequenciamento por Captura Viral, uma tecnologia capaz de identificar milhares de vírus simultaneamente, mesmo quando não há suspeita prévia.

Diferente dos testes tradicionais, esse método:

  • Não depende de hipóteses clínicas iniciais
  • Detecta vírus raros ou inesperados
  • Gera sequências genômicas quase completas

Em alguns pacientes, o vírus foi cultivado em laboratório, confirmando a presença de infecção ativa e replicante.

Casos graves podem ser apenas a parte visível do problema

Embora os casos identificados tenham sido clinicamente graves, evidências regionais sugerem que infecções mais leves podem estar ocorrendo sem diagnóstico. Isso levanta a possibilidade de circulação silenciosa do vírus na população, especialmente em áreas com contato frequente entre humanos e morcegos.

Esse cenário reforça a necessidade de:

  • Vigilância epidemiológica ampliada
  • Monitoramento contínuo de vírus zoonóticos
  • Revisão de protocolos diagnósticos em surtos neurológicos e respiratórios

Por que essa descoberta preocupa especialistas?

A identificação do ortoreovírus Pteropine em humanos evidencia como novos vírus podem atravessar a barreira entre espécies sem serem detectados. Em um contexto global marcado por emergência constante de doenças infecciosas, reconhecer esses patógenos precocemente é fundamental para evitar surtos maiores.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.