Mutação genética pode explicar falhas em tratamentos para esquizofrenia

Genética pode influenciar resposta ao tratamento psiquiátrico. (Foto: Africa Images via Canva)
Genética pode influenciar resposta ao tratamento psiquiátrico. (Foto: Africa Images via Canva)

Pesquisadores identificaram uma mutação genética rara que pode ajudar a explicar por que alguns pacientes com esquizofrenia não respondem bem a medicamentos modernos. O estudo, chamado “Implicações funcionais da variante C182F do gene TAAR1 identificada em pacientes com esquizofrenia”, foi conduzido por Britto Shajan et al e publicado na revista científica Genomic Psychiatry.

A pesquisa analisou uma alteração específica no gene TAAR1, que está ligado ao funcionamento de um receptor cerebral importante para o controle da dopamina, uma substância química essencial para a comunicação entre os neurônios.

O papel do gene TAAR1 no cérebro

O TAAR1 é um receptor que ajuda a regular a atividade da dopamina de forma mais equilibrada. Por isso, ele vem sendo estudado como um alvo promissor para novos tratamentos contra a esquizofrenia, com menos efeitos colaterais do que os remédios tradicionais.

No entanto, os pesquisadores descobriram que a mutação chamada C182F pode impedir que esse receptor funcione corretamente.

O que acontece quando o receptor não funciona?

Gene TAAR1 ajuda a explicar falhas em tratamentos contra esquizofrenia (Foto: Liandra Design via Canva)
Gene TAAR1 ajuda a explicar falhas em tratamentos contra esquizofrenia (Foto: Liandra Design via Canva)

Cada pessoa possui duas versões do mesmo gene, uma herdada da mãe e outra do pai. Quando as duas versões do gene TAAR1 apresentam a mutação, o cérebro passa a produzir apenas receptores defeituosos. Nesse cenário, esses receptores não respondem nem às substâncias naturais do organismo nem aos medicamentos desenvolvidos para ativá-los, tornando o tratamento ineficaz.

Já quando apenas uma das duas versões do gene está alterada, o organismo ainda consegue produzir parte dos receptores em sua forma normal. Isso permite alguma resposta aos medicamentos, porém de forma mais fraca e limitada, o que pode reduzir os efeitos do tratamento.

Na prática, isso ajuda a explicar por que mesmo terapias modernas podem não funcionar da mesma maneira para todos os pacientes, já que a resposta ao medicamento depende diretamente da combinação genética de cada pessoa.

Como os cientistas chegaram a essa conclusão

Os pesquisadores realizaram testes em células de laboratório para observar como o receptor se comportava. Eles também usaram modelos computacionais para entender como a mutação altera a estrutura do receptor.

Os resultados mostraram que a mutação muda o formato da proteína, bloqueando o local onde as moléculas terapêuticas deveriam se ligar. Com isso, o sinal químico necessário para o efeito do medicamento não acontece.

Por que essa descoberta é importante?

Embora essa mutação seja considerada rara, ela aparece com maior frequência em algumas populações. Isso reforça a importância de considerar a genética de cada paciente ao desenvolver e prescrever tratamentos.

A descoberta ajuda a entender por que alguns medicamentos funcionam bem para certas pessoas e não para outras, abrindo caminho para tratamentos mais personalizados no futuro.

O que pode mudar daqui para frente

Os autores do estudo destacam que testes genéticos podem se tornar uma ferramenta importante para indicar quais pacientes têm mais chance de se beneficiar de medicamentos que atuam no TAAR1.

Com isso, a pesquisa contribui para um avanço importante no cuidado da esquizofrenia, aproximando a ciência de terapias mais eficazes e seguras.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.