Nosso corpo possui uma habilidade surpreendente: os músculos podem “lembrar” tanto o treino quanto os períodos de inatividade. Pesquisas recentes apontam que essa memória muscular não é apenas uma percepção intuitiva, mas um fenômeno molecular real, capaz de afetar a forma como os músculos crescem, se recuperam ou enfraquecem ao longo do tempo.
Publicado em 12 de janeiro de 2026, o estudo preprint “A atrofia por desuso repetido imprime uma memória molecular no músculo esquelético: resiliência transcricional em adultos jovens e suscetibilidade em músculos envelhecidos” conduzido por Daniel C. Turner et al analisou como episódios repetidos de desuso muscular, como imobilização de pernas, podem alterar a expressão genética e impactar a recuperação futura. (DOI: 10.1101/2025.10.16.681134)
Como a memória muscular funciona
Durante os períodos de exercício, os músculos ativam genes responsáveis pelo crescimento e fortalecimento. Mesmo após semanas sem treino, os músculos mantêm registros epigenéticos, que preparam as fibras para responder de forma mais rápida e eficiente a esforços futuros.
No entanto, a pesquisa de Adam Sharples e sua equipe também mostrou que períodos de inatividade ou desuso repetidos deixam marcas negativas nos músculos, especialmente nos mais velhos. Durante o estudo, participantes tiveram uma perna imobilizada por duas semanas consecutivas, simulando situações comuns como lesões ou hospitalizações.
Resultados principais:
- Genes mitocondriais enfraquecidos: células musculares produziram menos energia, prejudicando resistência e recuperação.
- Redução da abundância mitocondrial: episódios repetidos tornaram os músculos mais vulneráveis à fraqueza.
- Alterações epigenéticas duradouras: mesmo após a recuperação, os músculos mantiveram marcas moleculares do desuso.
Diferenças entre músculos jovens e idosos

O estudo destacou que os músculos jovens demonstram maior resiliência. Após períodos repetidos de desuso, eles conseguem se recuperar mais rapidamente do que músculos envelhecidos, que tornam-se mais suscetíveis a fraqueza e perda de massa.
Em outras palavras, a memória muscular funciona como um registro de experiência:
- Experiências positivas: treino intenso ativa genes que facilitam crescimento e força futura.
- Experiências negativas: períodos prolongados de inatividade deixam o músculo mais sensível à perda de função.
Implicações para saúde e envelhecimento
Com o envelhecimento populacional em países como Noruega, Japão, Alemanha e Estados Unidos, entender a memória muscular é crucial. A fraqueza relacionada à idade aumenta o risco de quedas e complicações, e compreender os mecanismos moleculares que regulam essa memória pode orientar intervenções, desde exercícios específicos até tratamentos farmacológicos no futuro.
O estudo sugere que, mesmo após períodos de desuso ou doença, novos estímulos de treino podem reverter parte das perdas, especialmente quando combinados com treinos de força, resistência ou alta intensidade.
A memória muscular não é apenas sobre crescimento; ela registra tanto força quanto fraqueza. Exercícios passados e períodos de inatividade deixam impressões duradouras nos músculos, afetando como respondem a estímulos futuros. Compreender essa dinâmica pode revolucionar a prevenção de fraqueza muscular, a reabilitação pós-lesão e a manutenção da saúde ao longo da vida.

