Microplásticos já afetam algas marinhas responsáveis pela absorção global de CO₂

Microplásticos ameaçam algas oceânicas responsáveis por grande parte da absorção global de carbono (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Microplásticos ameaçam algas oceânicas responsáveis por grande parte da absorção global de carbono (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Os oceanos são essenciais para manter o equilíbrio climático da Terra. Além de contribuírem significativamente para a produção de oxigênio, eles funcionam como grandes reservatórios naturais de carbono, retirando da atmosfera enormes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) todos os anos. Entretanto, uma pesquisa recente aponta que os microplásticos podem estar prejudicando discretamente esse processo natural tão importante para reduzir os impactos das mudanças climáticas.

Publicado na revista científica Ecosystem Services, o estudo analisou os efeitos das partículas plásticas microscópicas sobre o fitoplâncton, grupo de organismos marinhos responsáveis por uma parcela significativa da fotossíntese realizada no planeta. Os pesquisadores identificaram sinais preocupantes relacionados à presença desses resíduos nos mares, incluindo:

  • Diminuição do crescimento das microalgas marinhas;
  • Queda na capacidade dos oceanos de capturar carbono;
  • Redução da penetração da luz solar na água;
  • Aumento de danos celulares e estresse oxidativo no fitoplâncton.

O fitoplâncton sustenta parte do equilíbrio climático da Terra

Embora invisíveis a olho nu, essas microalgas são fundamentais para o funcionamento do planeta. Elas utilizam luz solar, água e CO₂ para produzir energia por meio da fotossíntese, ajudando a remover carbono da atmosfera.

Esse processo transforma os oceanos em um enorme sumidouro natural de carbono, capaz de absorver aproximadamente 25% a 30% das emissões produzidas pelas atividades humanas.

O problema é que os microplásticos estão se espalhando rapidamente por praticamente todos os ambientes marinhos, desde áreas costeiras até regiões remotas do Ártico e da Antártica.

Como os microplásticos afetam as algas oceânicas

Segundo os pesquisadores, os microplásticos interferem no desenvolvimento das algas de várias maneiras. Algumas partículas liberam substâncias tóxicas, enquanto outras dificultam a passagem da luz solar pelas camadas da água.

Além disso, essas partículas podem causar danos físicos às células e aumentar o chamado estresse oxidativo, condição associada ao desequilíbrio químico celular.

Os impactos mais intensos foram identificados em regiões tropicais e áridas, justamente áreas importantes para a captura global de carbono.

Uma ameaça silenciosa que cresce todos os anos

Embora a redução atual da absorção de carbono ainda não seja gigantesca em escala planetária, os cientistas alertam para um fator preocupante: a quantidade de plástico nos oceanos continua aumentando continuamente.

Grande parte do plástico descartado no ambiente acaba fragmentada em partículas microscópicas que permanecem circulando na água durante décadas.

A pesquisa também destaca que o problema está diretamente ligado à chamada tripla crise planetária, conceito usado pela ONU para descrever três desafios interligados:

  • Mudanças climáticas;
  • Perda de biodiversidade;
  • Poluição ambiental.

Os cientistas reforçam que compreender o impacto dos microplásticos vai além da poluição visível. Trata-se de entender como resíduos aparentemente pequenos podem alterar processos naturais fundamentais para a estabilidade climática do planeta.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes