A frutose, um tipo de açúcar presente nas frutas e também em produtos adoçados, pode ter efeitos diferentes no organismo dependendo da quantidade e da fonte alimentar. Quando o consumo é elevado, especialmente por meio de bebidas açucaradas, esse açúcar pode contribuir para alterações metabólicas relacionadas ao acúmulo de gordura no fígado.
Uma pesquisa publicada na revista científica Nature Metabolism investigou uma estratégia diferente para enfrentar esse problema: bloquear uma enzima envolvida nas primeiras etapas do processamento da frutose. Em um pequeno ensaio clínico com pessoas que tinham doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), o tratamento experimental reduziu a gordura hepática e melhorou a ação da insulina, mesmo sem provocar perda de peso.
Bloquear uma etapa do metabolismo pode mudar a saúde do fígado
A enzima estudada é a cetoexocinase, também conhecida pela sigla KHK. Ela participa do início do metabolismo da frutose, transformando esse açúcar em compostos que seguem por outras etapas dentro das células.
Quando há excesso de frutose disponível, seu processamento pode favorecer alterações metabólicas relacionadas à produção e ao armazenamento de gordura. Por isso, os pesquisadores avaliaram se a inibição da KHK poderia ajudar o organismo a lidar melhor com esse cenário.
Para testar a hipótese, a equipe utilizou o PF-06835919, um composto experimental desenvolvido para inibir essa enzima. O objetivo era verificar se interferir nessa via metabólica poderia beneficiar pessoas que já apresentavam gordura acumulada no fígado.
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Entrar no Canal do WhatsAppSeis semanas de tratamento trouxeram mudanças metabólicas
O ensaio clínico incluiu 15 participantes com MASLD e seguiu um modelo cruzado, randomizado e controlado por placebo. Nesse tipo de estudo, os participantes recebem os tratamentos em períodos diferentes, permitindo comparar as respostas ao medicamento e ao placebo.
Durante seis semanas de tratamento, os pesquisadores observaram resultados favoráveis em diferentes indicadores metabólicos. Entre os principais achados estavam:
- Redução dos lipídios acumulados no fígado, incluindo ácidos graxos saturados.
- Melhora da sensibilidade hepática à insulina, ajudando o fígado a responder melhor ao hormônio.
- Melhor utilização da glicose estimulada pela insulina em tecidos periféricos.
- Aumento da sensibilidade à insulina no tecido adiposo.
- Maior oxidação de gordura durante a noite, indicando mudanças na utilização de fontes de energia.
Um detalhe chama atenção: o peso corporal não mudou significativamente com o tratamento. Isso sugere que os benefícios observados no fígado não dependeram necessariamente de emagrecimento durante o período avaliado.
A gordura no fígado pode diminuir mesmo sem emagrecer?
A MASLD, anteriormente conhecida como doença hepática gordurosa não alcoólica, caracteriza-se pelo acúmulo excessivo de gordura no fígado associado a alterações metabólicas. A condição pode coexistir com resistência à insulina, obesidade, diabetes tipo 2 e maior risco cardiovascular.
Em algumas pessoas, a doença pode evoluir para inflamação e lesões hepáticas mais graves. Por isso, encontrar formas de reduzir a gordura no órgão e melhorar a resposta à insulina é uma área importante de investigação.
Os resultados sugerem que interferir no metabolismo da frutose pode produzir efeitos que vão além do próprio fígado, alcançando também o tecido adiposo e a utilização de glicose. Os pesquisadores identificaram, ainda, mudanças em partículas de lipoproteínas e em substâncias produzidas pelo fígado que circulam no sangue.
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O medicamento ainda precisa passar por novas avaliações
O estudo foi publicado em 7 de outubro de 2026, na revista Nature Metabolism. A primeira autora é Evi J. C. Koene.
Apesar dos resultados promissores, é importante considerar o tamanho reduzido da pesquisa: foram apenas 15 participantes, acompanhados durante seis semanas. Portanto, ainda são necessários estudos maiores e mais longos para esclarecer a segurança do composto, a duração dos benefícios e sua possível utilidade no tratamento da MASLD.
O PF-06835919 não deve ser considerado um tratamento estabelecido com base nesses resultados. Além disso, o estudo não significa que seja necessário eliminar as frutas da alimentação. Frutas inteiras contêm fibras, água e outros nutrientes, e seus efeitos não são equivalentes aos do consumo elevado de açúcares em bebidas adoçadas.
A principal descoberta é que bloquear uma etapa do processamento da frutose pode ajudar a melhorar indicadores importantes da saúde metabólica. Se pesquisas futuras confirmarem esses efeitos, essa estratégia poderá abrir um novo caminho para tratar a gordura no fígado.
