Medicamento antigo mostra resultado inédito e muda visão sobre diabetes tipo 1

Estudo revela novo efeito da metformina no diabetes tipo 1. (Foto: Anna Ohanesian via Canva)
Estudo revela novo efeito da metformina no diabetes tipo 1. (Foto: Anna Ohanesian via Canva)

Uma descoberta recente reacendeu a atenção da comunidade científica para um fármaco conhecido há mais de um século. A metformina, tradicionalmente usada no tratamento do diabetes tipo 2, acaba de apresentar um efeito surpreendente em adultos com diabetes tipo 1, trazendo novas perspectivas para a gestão da doença. 

O achado vem de um ensaio clínico realizado na Austrália e abre caminho para estratégias mais práticas, acessíveis e sustentáveis para milhões de pessoas.

Efeito inesperado muda entendimento sobre a metformina

Por muitos anos, acreditou-se que a metformina poderia auxiliar pacientes com diabetes tipo 1 ao reduzir a resistência à insulina. No entanto, o novo estudo mostrou algo totalmente diferente. De forma clara e consistente, os pesquisadores observaram que o medicamento não atua diminuindo a resistência, mas sim reduzindo a quantidade de insulina necessária ao longo do dia.

Essa diminuição foi significativa: os participantes que receberam metformina utilizaram cerca de 12% menos insulina quando comparados ao grupo que recebeu placebo. 

Essa diferença, embora pareça pequena, representa uma mudança importante no cotidiano da pessoa com diabetes tipo 1, que lida diariamente com ajustes finos de doses, medições constantes e impactos emocionais associados ao controle glicêmico.

Importância para quem vive com diabetes tipo 1

Descoberta liga metformina a mudanças no microbioma intestinal. (Foto: Meepian's Images via Canva)
Descoberta liga metformina a mudanças no microbioma intestinal. (Foto: Meepian’s Images via Canva)

A redução da demanda de insulina é vista como um avanço relevante, especialmente porque envolve um medicamento barato, seguro e amplamente disponível. Entre os principais benefícios potenciais estão:

  • Menor carga física e mental associada ao manejo da doença.
  • Redução da variabilidade glicêmica em alguns perfis de pacientes.
  • Possibilidade de otimizar o tratamento sem custos elevados.
  • Uso de um fármaco com décadas de histórico clínico.

Além disso, a descoberta abre novas linhas de discussão sobre o papel de terapias adjuvantes no diabetes tipo 1, que tradicionalmente depende quase exclusivamente da aplicação de insulina desde o diagnóstico.

Investigação sobre o mecanismo ainda em andamento

Apesar dos resultados expressivos, a razão por trás desse efeito ainda não está completamente esclarecida. Os pesquisadores do Instituto Garvan já iniciaram uma nova etapa da investigação, com foco em uma possível relação entre a metformina e o microbioma intestinal. A hipótese é que o medicamento possa alterar a flora intestinal de maneira a influenciar o metabolismo da glicose e, consequentemente, a necessidade de insulina.

Esse campo de estudo tem ganhado força nos últimos anos, especialmente porque o intestino desempenha papel direto na regulação metabólica e imunológica. Compreender essa conexão pode abrir portas para tratamentos mais personalizados e eficientes.

O que esperar daqui para frente

Os achados representam um passo importante, mas ainda são necessários estudos complementares para compreender a fundo o impacto da metformina no diabetes tipo 1 em diferentes populações. 

No entanto, a descoberta já mostra que medicamentos tradicionais podem ter funções ainda não exploradas, oferecendo novas possibilidades terapêuticas que são, ao mesmo tempo, acessíveis, práticas e cientificamente promissoras.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.