Máscaras reutilizáveis podem liberar metais invisíveis na água

Máscaras podem liberar metais na água. (Foto: Getty Images via Canva)
Máscaras podem liberar metais na água. (Foto: Getty Images via Canva)

As máscaras reutilizáveis ganharam popularidade nos últimos anos por prometerem proteção prolongada contra microrganismos. No entanto, uma nova análise científica aponta que esse mesmo recurso pode esconder um problema ambiental pouco discutido: a liberação gradual de metais potencialmente tóxicos em ambientes aquáticos.

A investigação, publicada na revista científica Environment and Health com participação do autor principal D. Li (2026), chama atenção para um cenário em que equipamentos de proteção individual podem se transformar em fontes contínuas de contaminação ambiental.

Nanopartículas que não desaparecem após o uso

Essas máscaras são produzidas com nanopartículas metálicas (MNPs) como prata, cobre e platina, amplamente usadas por suas propriedades antimicrobianas. Porém, o estudo mostra que essas partículas não permanecem totalmente fixas no material.

Com o uso e principalmente durante a lavagem, ocorre a liberação gradual desses elementos, que podem chegar a sistemas aquáticos e permanecer ativos no ambiente.

Entre os metais detectados estão:

  • prata (Ag)
  • cobre (Cu)
  • platina (Pt)
  • além de traços de chumbo, níquel, cromo e antimônio

O impacto da lavagem no ciclo de contaminação

Um dos pontos mais importantes da pesquisa é o papel da lavagem doméstica. A interação com água e detergentes acelera a liberação das partículas metálicas.

De forma geral, o processo ocorre assim:

  • fibras sintéticas liberam metais presos
  • nanopartículas se desprendem gradualmente
  • detergentes aumentam a mobilidade dessas partículas
  • resíduos seguem para sistemas de esgoto e rios

Em alguns casos, o detergente intensificou a liberação de certos metais, ampliando o potencial de dispersão ambiental.

Três tipos de máscaras, comportamentos diferentes

Lavagem de máscaras pode contaminar rios. (Foto: Getty Images via Canva)
Lavagem de máscaras pode contaminar rios. (Foto: Getty Images via Canva)

O estudo analisou máscaras com suposta ação antimicrobiana à base de diferentes metais, incluindo versões com prata, cobre e platina.

Máscaras com prata

Foram as que apresentaram maior liberação de metais em certos cenários, com parte significativa saindo na forma iônica e pequena fração como nanopartículas.

Máscaras com cobre

Mostraram grande variabilidade, com liberação mais baixa proporcionalmente, mas ainda relevante em quantidade total.

Máscaras com platina

Apesar da rotulagem, não foi detectada platina em algumas amostras. Em contrapartida, outros metais estavam presentes e também foram liberados durante a lavagem.

Essa variação indica inconsistências na composição e no comportamento dos materiais.

Mistura química além do rótulo

Outro ponto crítico é que as máscaras não continham apenas o metal declarado. Foram encontrados traços de:

  • chumbo
  • cromo
  • níquel
  • antimônio

Esses elementos podem surgir durante a fabricação ou como aditivos do polímero sintético. O problema é que muitos deles não permanecem estáveis nas fibras e acabam sendo liberados com facilidade.

Risco ambiental em cadeia

De acordo com a análise publicada na Environment and Health por D. Li (2026), a liberação combinada de metais pode ultrapassar níveis considerados seguros para organismos aquáticos.

Entre os principais riscos observados:

  • toxicidade para algas e microrganismos
  • bioacumulação ao longo da cadeia alimentar
  • interação entre metais que pode aumentar a toxicidade
  • impacto potencial em ecossistemas de água doce

Mesmo quando alguns metais não atingem níveis críticos isoladamente, a combinação entre eles pode gerar efeitos mais complexos.

Problema pouco visível, mas acumulativo

O estudo reforça que máscaras descartadas ou mal gerenciadas podem se tornar uma fonte contínua de contaminação por nanopartículas metálicas.

Isso ocorre porque:

  • são produzidas em larga escala
  • podem ser lavadas repetidamente
  • liberam partículas de forma gradual
  • entram facilmente no ciclo da água

Alerta para o futuro dos materiais de proteção

A pesquisa aponta para a necessidade de maior controle sobre materiais usados em equipamentos reutilizáveis. Isso inclui melhor rotulagem, regulamentação mais clara e avaliação do impacto ambiental ao longo de todo o ciclo de vida do produto.

A principal preocupação não é apenas o uso imediato das máscaras, mas o que acontece com elas depois.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn