Marte pode ter sido o berço da vida que hoje existe na Terra

Microrganismos marcianos podem ter sobrevivido em meteoritos rumo à Terra. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Microrganismos marcianos podem ter sobrevivido em meteoritos rumo à Terra. (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

A pergunta sobre como a vida surgiu na Terra intriga cientistas há décadas. Embora existam diversas teorias sobre a transição da química para a biologia, um cenário fascinante sugere que nosso planeta pode ter recebido a vida de Marte. Essa hipótese, embora não seja dominante, desafia nossa compreensão sobre a origem da vida e o papel do Sistema Solar nesse processo.

Se confirmada, a ideia de que microrganismos marcianos viajaram em meteoritos para a Terra mudaria completamente a forma como entendemos a evolução inicial da vida. Mas o que torna essa teoria plausível e quais são os obstáculos que ela enfrenta?

Marte como planeta hospitaleiro do passado

Nos primórdios do Sistema Solar, cerca de 4,6 bilhões de anos atrás, Marte possuía características que lembram a Terra primitiva:

  • Atmosfera protetora e água líquida em rios, lagos e oceanos;
  • Atividade geotérmica intensa, com fontes hidrotermais capazes de nutrir organismos primitivos;
  • Relativa estabilidade frente a grandes colisões cósmicas, ao contrário da Terra, que sofreu impactos massivos, como o que formou a Lua.

Essas condições criam um cenário no qual a vida poderia ter surgido em Marte antes mesmo da Terra se tornar habitável.

O desafio da travessia interplanetária

Vida em Marte: a hipótese de que somos descendentes de microrganismos. (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Vida em Marte: a hipótese de que somos descendentes de microrganismos. (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Para que a vida marciana alcançasse a Terra, os microrganismos teriam enfrentado condições extremamente adversas, começando pelo impacto inicial na superfície de Marte, seguido pela ejeção a altas velocidades e a exposição à radiação cósmica no vácuo do espaço. Em seguida, precisariam sobreviver à entrada na atmosfera terrestre, enfrentando temperaturas elevadas, e ainda se adaptar a um ambiente completamente novo

Embora a probabilidade de sobrevivência seja baixa, ela não é impossível: estudos indicam que microrganismos resistentes, capazes de formar esporos ou suportar radiação intensa, poderiam sobreviver dentro de meteoritos suficientemente grandes, protegidos das condições hostis do espaço.

O papel de Luca na origem da vida terrestre

O último ancestral comum universal (Luca), reconstruído a partir de análises genéticas e fósseis, indica que formas de vida complexas já existiam na Terra há cerca de 4,2 bilhões de anos. Isso significa que a vida poderia ter se originado na própria Terra, mesmo após eventos catastróficos como a formação da Lua.

Portanto, a hipótese marciana não é necessária para explicar a origem da vida, mas oferece uma perspectiva intrigante sobre a dispersão de microrganismos no Sistema Solar.

A ideia de que somos descendentes de microrganismos vindos de Marte é fascinante, mas enfrenta desafios científicos significativos. No entanto, continuar investigando essa possibilidade pode revelar mais sobre a resiliência da vida e sobre os processos que moldaram nosso planeta e, talvez, outros mundos habitáveis.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.