Mamografia anual pode estar com os dias contados; entenda

Rastreio personalizado pode mudar a mamografia. (Foto: Getty Images via Canva)
Rastreio personalizado pode mudar a mamografia. (Foto: Getty Images via Canva)

Por décadas, o rastreio do câncer de mama seguiu uma regra simples: exames regulares baseados quase exclusivamente na idade. No entanto, evidências científicas recentes indicam que essa abordagem pode estar ultrapassada. Um estudo de grande escala aponta que personalizar o rastreio conforme o risco individual é mais eficiente, seguro e alinhado com a biologia de cada mulher.

A pesquisa analisou dados de dezenas de milhares de participantes e revelou que adaptar a frequência dos exames reduz a ocorrência de tumores diagnosticados em estágios avançados, sem aumentar riscos para mulheres com menor probabilidade de desenvolver a doença.

Idade não conta toda a história

O risco de câncer de mama varia amplamente entre mulheres da mesma faixa etária. Fatores como genética, densidade mamária, histórico clínico e estilo de vida influenciam diretamente a probabilidade de desenvolvimento da doença. Ainda assim, por muito tempo, esses elementos foram pouco considerados nas diretrizes de rastreio.

O estudo “Risk-Based vs Annual Breast Cancer Screening”, conduzido por Laura J. Esserman, publicado na revista científica JAMA, propõe uma mudança estrutural: substituir o modelo padronizado por uma avaliação integrada de risco.

Como funciona o rastreio baseado em risco

Nova abordagem promete detecção mais precisa. (Foto: Ryan King 999 via Canva)
Nova abordagem promete detecção mais precisa. (Foto: Ryan King 999 via Canva)

A estratégia testada classifica as mulheres em categorias distintas, permitindo que cada grupo receba o nível de rastreio mais adequado. Entre os critérios avaliados estão dados genéticos, idade, hábitos de vida e informações clínicas relevantes.

De forma resumida, o modelo prevê:

  • Menor frequência ou início tardio do rastreio para mulheres de baixo risco
  • Intervalos bienais para risco intermediário
  • Mamografias anuais para risco elevado
  • Combinação de mamografia e ressonância magnética para risco muito alto

Esse direcionamento melhora a eficiência do sistema e evita exames desnecessários, ao mesmo tempo em que intensifica o acompanhamento de quem mais precisa.

Genética além do histórico familiar

Um dos achados mais relevantes foi a identificação de variantes genéticas associadas ao câncer de mama em mulheres sem qualquer histórico familiar da doença. Além de mutações clássicas como BRCA1 e BRCA2, o estudo incorporou pontuações de risco poligênico, que analisam múltiplas alterações genéticas menores.

Essa abordagem refinou a previsão de risco e levou à reclassificação de uma parcela significativa das participantes, mostrando que apenas perguntar sobre familiares não é suficiente para identificar quem está em maior perigo.

Aceitação elevada e impacto prático

A maioria das mulheres envolvidas demonstrou preferência clara pelo rastreio personalizado. Esse dado é crucial, pois indica viabilidade prática e aceitação social de um modelo mais inteligente e individualizado.

Além disso, mulheres de alto risco receberam orientações preventivas específicas, incluindo ajustes no estilo de vida e estratégias clínicas para redução do risco futuro.

O futuro do rastreio do câncer de mama

Com a expansão do estudo, pesquisadores buscam aprimorar ainda mais os algoritmos de risco, especialmente para identificar cânceres agressivos em idades mais jovens. A expectativa é que essa abordagem influencie futuras diretrizes clínicas e transforme a prevenção oncológica feminina.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.