Por décadas, o rastreio do câncer de mama seguiu uma regra simples: exames regulares baseados quase exclusivamente na idade. No entanto, evidências científicas recentes indicam que essa abordagem pode estar ultrapassada. Um estudo de grande escala aponta que personalizar o rastreio conforme o risco individual é mais eficiente, seguro e alinhado com a biologia de cada mulher.
A pesquisa analisou dados de dezenas de milhares de participantes e revelou que adaptar a frequência dos exames reduz a ocorrência de tumores diagnosticados em estágios avançados, sem aumentar riscos para mulheres com menor probabilidade de desenvolver a doença.
Idade não conta toda a história
O risco de câncer de mama varia amplamente entre mulheres da mesma faixa etária. Fatores como genética, densidade mamária, histórico clínico e estilo de vida influenciam diretamente a probabilidade de desenvolvimento da doença. Ainda assim, por muito tempo, esses elementos foram pouco considerados nas diretrizes de rastreio.
O estudo “Risk-Based vs Annual Breast Cancer Screening”, conduzido por Laura J. Esserman, publicado na revista científica JAMA, propõe uma mudança estrutural: substituir o modelo padronizado por uma avaliação integrada de risco.
Como funciona o rastreio baseado em risco

A estratégia testada classifica as mulheres em categorias distintas, permitindo que cada grupo receba o nível de rastreio mais adequado. Entre os critérios avaliados estão dados genéticos, idade, hábitos de vida e informações clínicas relevantes.
De forma resumida, o modelo prevê:
- Menor frequência ou início tardio do rastreio para mulheres de baixo risco
- Intervalos bienais para risco intermediário
- Mamografias anuais para risco elevado
- Combinação de mamografia e ressonância magnética para risco muito alto
Esse direcionamento melhora a eficiência do sistema e evita exames desnecessários, ao mesmo tempo em que intensifica o acompanhamento de quem mais precisa.
Genética além do histórico familiar
Um dos achados mais relevantes foi a identificação de variantes genéticas associadas ao câncer de mama em mulheres sem qualquer histórico familiar da doença. Além de mutações clássicas como BRCA1 e BRCA2, o estudo incorporou pontuações de risco poligênico, que analisam múltiplas alterações genéticas menores.
Essa abordagem refinou a previsão de risco e levou à reclassificação de uma parcela significativa das participantes, mostrando que apenas perguntar sobre familiares não é suficiente para identificar quem está em maior perigo.
Aceitação elevada e impacto prático
A maioria das mulheres envolvidas demonstrou preferência clara pelo rastreio personalizado. Esse dado é crucial, pois indica viabilidade prática e aceitação social de um modelo mais inteligente e individualizado.
Além disso, mulheres de alto risco receberam orientações preventivas específicas, incluindo ajustes no estilo de vida e estratégias clínicas para redução do risco futuro.
O futuro do rastreio do câncer de mama
Com a expansão do estudo, pesquisadores buscam aprimorar ainda mais os algoritmos de risco, especialmente para identificar cânceres agressivos em idades mais jovens. A expectativa é que essa abordagem influencie futuras diretrizes clínicas e transforme a prevenção oncológica feminina.

