A astronomia acaba de alcançar um marco impressionante: pela primeira vez, cientistas observaram a perda atmosférica de um exoplaneta em tempo real ao longo de uma órbita inteira. O protagonista é WASP-121b, um gigante gasoso extremamente quente que orbita perigosamente perto de sua estrela, completando uma volta em apenas 30 horas. Sob radiação intensa, o planeta está literalmente perdendo sua atmosfera para o espaço, formando estruturas jamais vistas com esse nível de detalhe.
Utilizando o Telescópio Espacial James Webb, astrônomos conseguiram acompanhar esse processo contínuo, revelando um cenário muito mais complexo do que os modelos previam. O estudo foi publicado em Nature Communications, em 2025, com o título “A complex helium structure escaping over more than half the orbit of the ultra-hot Jupiter WASP-121 b” (DOI: 10.1038/s41467-025-66628-5), assinado por Romain Allart e colaboradores. Os dados chamaram atenção por três motivos:
- Perda atmosférica contínua, observada durante quase 37 horas;
- Duas caudas gigantes de hélio, e não apenas uma;
- Extensão do gás ultrapassando mais da metade da órbita do planeta.
Um laboratório natural sob temperaturas extremas
Classificado como um Júpiter ultraquente, o WASP-121b enfrenta condições extremas. Sua proximidade da estrela eleva a temperatura atmosférica a milhares de graus, permitindo que elementos leves, como hidrogênio e hélio, escapem com facilidade da gravidade do planeta. Com o tempo, esse processo pode alterar profundamente sua massa, densidade e evolução.

Até recentemente, esse fenômeno só podia ser analisado durante breves trânsitos planetários. No entanto, o monitoramento contínuo realizado pelo James Webb permitiu observar o comportamento do gás antes, durante e depois da passagem do planeta diante da estrela.
Duas caudas de hélio redesenham teorias
O dado mais surpreendente foi a identificação de duas estruturas distintas de hélio. Uma delas se estende atrás do planeta, semelhante à cauda de um cometa, enquanto a outra avança em direção à estrela. Juntas, essas correntes gasosas alcançam distâncias equivalentes a mais de 100 vezes o diâmetro do planeta.
Essa configuração desafia os modelos atmosféricos atuais, que normalmente explicam apenas caudas simples. O resultado indica que gravidade, radiação estelar e ventos estelares atuam simultaneamente, exigindo o desenvolvimento de novas simulações tridimensionais para compreender plenamente o fenômeno.
Além de revelar a complexidade dos exoplanetas extremos, o estudo demonstra o poder do hélio como marcador da fuga atmosférica e consolida o James Webb como ferramenta essencial para investigar a evolução de mundos fora do Sistema Solar. Observações futuras dirão se essa estrutura de cauda dupla é uma exceção ou uma característica comum entre planetas quentes.

