Inteligência artificial revoluciona monitoramento de dor em recém-nascidos na UTI

Inteligência artificial identifica dor em recém-nascidos. (Foto: Leung Cho Pan via Canva)
Inteligência artificial identifica dor em recém-nascidos. (Foto: Leung Cho Pan via Canva)

A avaliação da dor em recém-nascidos sempre foi um desafio nas UTIs neonatais, devido à impossibilidade de comunicação verbal dos bebês e à subjetividade das escalas tradicionais. Recentemente, pesquisadores da FEI e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram uma ferramenta inovadora de inteligência artificial (IA) capaz de interpretar expressões faciais de recém-nascidos, oferecendo uma análise objetiva e precisa do sofrimento neonatal. 

Publicada na revista Pediatric Research, a pesquisa aponta avanços significativos em relação aos métodos tradicionais de avaliação da dor.

Como a inteligência artificial avalia a dor

O sistema utiliza modelos multimodais de linguagem e visão, que combinam análise de imagens e interpretação de padrões, permitindo identificar sinais de desconforto com maior acurácia. Diferentemente das técnicas clássicas de deep learning, que exigem bancos de dados específicos e pré-processamento complexo, esta tecnologia aproveita modelos pré-treinados em grandes volumes de dados, tornando a aplicação clínica mais rápida e abrangente.

A principal vantagem é transformar informações subjetivas em dados objetivos, reduzindo a variação causada pelo estado emocional do profissional de saúde ou familiar que observa o bebê. Isso possibilita decisões médicas mais seguras e fundamentadas.

Desafios da dor neonatal

Recém-nascidos em UTIs podem ser submetidos a múltiplos procedimentos dolorosos diariamente, como:

  • Punções venosas
  • Inserção de cateteres
  • Cirurgias
  • Intubações

Essas intervenções são essenciais para o cuidado médico, mas a dor mal gerenciada pode causar efeitos neurotóxicos duradouros. Estudos indicam que bebês são ainda mais vulneráveis aos estímulos dolorosos devido à imaturidade neurológica, tornando o monitoramento preciso da dor fundamental.

Aplicações clínicas futuras

Ferramenta de IA apoia decisões médicas em tempo real. (Foto: Leung Cho Pan via Canva)
Ferramenta de IA apoia decisões médicas em tempo real. (Foto: Leung Cho Pan via Canva)

A tecnologia de IA aplicada à dor neonatal tem potencial para evoluir além da avaliação estática:

  • Emissão de alertas em tempo real, funcionando como monitor de dor paralelo a dispositivos cardíacos e respiratórios
  • Apoio à prescrição de analgésicos de forma segura, evitando subtratamento ou excesso de medicação
  • Redução da subjetividade na interpretação de sinais de sofrimento

O objetivo final é equilibrar necessidade clínica e bem-estar do bebê, garantindo intervenções médicas essenciais sem comprometer o desenvolvimento neurológico.

Impacto e precisão

Além da performance técnica, a inovação evidencia o impacto direto na vida dos recém-nascidos. Cada ponto percentual de acerto na identificação de dor representa uma oportunidade de tratamento adequado, prevenindo sequelas e melhorando a qualidade de cuidado nas UTIs neonatais. A abordagem proposta também amplia a aplicabilidade da IA em saúde, demonstrando que modelos pré-treinados podem resolver tarefas clínicas específicas com eficiência.

A integração de inteligência artificial em UTIs neonatais marca um avanço significativo na medicina infantil, transformando observações subjetivas em dados objetivos. O estudo demonstra que a tecnologia pode revolucionar o monitoramento da dor, apoiar decisões médicas seguras e proteger o desenvolvimento neurológico de recém-nascidos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn