IA revela regras de misterioso jogo romano esquecido há séculos

Peças romanas de vidro ou pedra eram deslizadas no tabuleiro, causando desgaste natural. (Imagem: Museu Het Romeins)
Peças romanas de vidro ou pedra eram deslizadas no tabuleiro, causando desgaste natural. (Imagem: Museu Het Romeins)

Uma simples pedra circular de calcário, escavada na Holanda e datada da Roma Antiga, intrigou arqueólogos por décadas. À primeira vista, tratava-se apenas de um bloco branco com linhas gravadas. No entanto, análises recentes revelaram algo surpreendente: o objeto provavelmente funcionava como um jogo de tabuleiro estratégico. Agora, graças ao uso de inteligência artificial (IA) e modelagem tridimensional, pesquisadores conseguiram propor regras plausíveis para a prática desse jogo milenar. Após a digitalização em 3D, os cientistas identificaram padrões relevantes:

  • Sulcos diagonais e retos com profundidades diferentes;
  • Marcas de desgaste compatíveis com movimentação repetida de peças;
  • Áreas específicas que sugerem rotas preferenciais no tabuleiro.

Esses indícios reforçam a hipótese de uso lúdico e estratégico, em vez de mera decoração ou função arquitetônica.

Software de simulação revive jogo estratégico romano perdido

A peça, preservada no Museu Romano (Het Romeins Museum), foi analisada por pesquisadores da Universidade de Leiden e da Universidade de Maastricht. O estudo, publicado na revista científica Antiquity, descreve o uso de um programa chamado Ludii, uma plataforma capaz de simular e reconstruir regras de jogos antigos a partir de padrões geométricos.

Peças romanas de vidro ou pedra eram deslizadas no tabuleiro, causando desgaste natural. (Imagem: Museu Het Romeins)
Peças romanas de vidro ou pedra eram deslizadas no tabuleiro, causando desgaste natural. (Imagem: Museu Het Romeins)

O sistema foi treinado com cerca de cem jogos históricos da mesma região europeia. A partir disso, gerou dezenas de possíveis conjuntos de regras. Em seguida, executou simulações automáticas, comparando quais variantes produziam partidas equilibradas e coerentes com o padrão de desgaste observado na pedra.

Estratégia simples, dinâmica complexa

Os resultados indicam que o jogo provavelmente envolvia captura e cerco de peças adversárias, exigindo planejamento tático e antecipação de movimentos. Embora as regras propostas sejam consistentes com as evidências físicas, os pesquisadores ressaltam que não é possível afirmar com absoluta certeza que os romanos jogavam exatamente dessa maneira.

Ainda assim, o estudo representa um avanço metodológico importante. Ao integrar arqueologia, análise de desgaste e simulações computacionais, a pesquisa demonstra como a tecnologia pode ampliar nossa compreensão do passado.

Além de revelar aspectos do entretenimento romano, a descoberta também contribui para o entendimento da cultura lúdica antiga e da difusão de jogos estratégicos pela Europa. Desse jeito, trata-se de um exemplo marcante de como a inteligência artificial pode atuar como ferramenta científica, conectando vestígios físicos a hipóteses testáveis.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes