IA consegue prever doenças graves analisando apenas uma noite de sono

IA analisa o sono e prevê riscos de doenças graves. (Foto: Getty Images via Canva)
IA analisa o sono e prevê riscos de doenças graves. (Foto: Getty Images via Canva)

Enquanto o corpo descansa, uma complexa sinfonia de sinais ocorre silenciosamente no cérebro, no coração e na respiração. Cientistas demonstraram que essas informações noturnas escondem pistas precoces sobre doenças graves, capazes de surgir anos depois. Uma nova inteligência artificial desenvolvida por pesquisadores da Stanford Medicine mostrou que apenas uma noite de sono pode ser suficiente para prever riscos futuros à saúde.

O estudo, intitulado “A multimodal sleep foundation model for disease prediction”, foi publicado na revista científica Nature Medicine em 2026 e conduzido por Rahul Thapa et al.

Sono guarda sinais que a medicina ignora

O sono é um dos poucos momentos em que o corpo permanece relativamente imóvel por horas, permitindo a coleta contínua de sinais fisiológicos altamente detalhados. A polissonografia, exame padrão para estudos do sono, registra simultaneamente:

  • Atividade cerebral
  • Batimentos cardíacos
  • Respiração
  • Movimentos musculares
  • Fluxo de ar e oxigenação

Apesar disso, na prática clínica tradicional, apenas uma fração desses dados costuma ser analisada. O novo estudo partiu da hipótese de que essas informações ignoradas poderiam conter marcadores precoces de doenças sistêmicas.

Como a IA aprendeu a “linguagem do sono”

Para testar essa ideia, os pesquisadores criaram o SleepFM, um modelo fundamental de inteligência artificial treinado com 585 mil horas de registros de sono provenientes de cerca de 65 mil pessoas. Cada exame foi fragmentado em pequenos intervalos de cinco segundos, permitindo que o sistema aprendesse padrões sutis e recorrentes.

O modelo integra sinais do cérebro, coração, músculos e respiração, analisando como esses sistemas se sincronizam ou entram em desalinho. Essa abordagem multimodal permitiu à IA identificar relações invisíveis aos métodos convencionais de análise médica.

Previsões impressionantes a partir de uma única noite

IA identifica padrões ocultos no corpo enquanto dormimos. (Foto: Getty Images via Canva)
IA identifica padrões ocultos no corpo enquanto dormimos. (Foto: Getty Images via Canva)

Após o treinamento, o SleepFM foi testado em tarefas clínicas conhecidas e apresentou desempenho igual ou superior aos modelos tradicionais. Em seguida, enfrentou um desafio mais ambicioso: prever doenças futuras usando apenas dados do sono.

Ao cruzar registros de polissonografia com décadas de históricos médicos, a IA conseguiu prever 130 condições de saúde com boa precisão. Entre as mais bem identificadas estavam:

  • Câncer de mama e próstata
  • Demência
  • Doença de Parkinson
  • Doenças cardiovasculares
  • Transtornos de saúde mental
  • Risco de mortalidade

Em vários casos, os índices de previsão superaram 0,8, valor considerado elevado mesmo para ferramentas já usadas na medicina.

O poder está na comparação entre os sinais

Um dos achados mais relevantes do estudo foi que as previsões mais precisas surgiram da comparação entre diferentes sistemas do corpo. Situações em que o cérebro parecia estar em repouso, enquanto o coração mostrava padrões de alerta, por exemplo, indicaram maior risco futuro.

Esse tipo de dessincronização fisiológica se mostrou um marcador importante para diversas doenças, reforçando que a saúde não depende de um único órgão, mas da harmonia entre eles.

O que essa descoberta pode mudar na medicina

Os resultados sugerem que o sono pode se tornar uma ferramenta poderosa de prevenção, permitindo identificar riscos muito antes do aparecimento dos sintomas. No futuro, versões aprimoradas do modelo poderão integrar dados de dispositivos vestíveis, ampliando ainda mais o alcance dessa abordagem.

Ao transformar o sono em uma janela para o futuro da saúde, a inteligência artificial pode inaugurar uma nova era de diagnóstico precoce e medicina personalizada.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.