Muito antes das primeiras tabuletas da Mesopotâmia, os humanos já deixavam registros intencionais no mundo ao seu redor. Um estudo recente conduzido na Universidade do Sarre sugere que, há cerca de 40 mil anos, populações da Era do Gelo gravavam sequências estruturadas de sinais em ferramentas e estatuetas e não simples ornamentos decorativos.
A pesquisa, publicada na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), analisou mais de 3.000 marcas geométricas distribuídas em aproximadamente 260 artefatos paleolíticos. Com apoio de métodos da linguística quantitativa e da modelagem computacional, os pesquisadores avaliaram a complexidade estatística desses padrões. Três pontos chamaram atenção:
- Alta repetição estruturada de pontos, linhas e cruzes;
- Previsibilidade estatística nas sequências;
- Densidade de informação comparável à proto-cuneiforme.
Esses achados indicam que os sinais não eram aleatórios. Ao contrário, apresentavam organização consistente, sugerindo um sistema convencional de codificação visual.
Marcas na pedra, organização na mente
Os objetos analisados datam de 34 mil a 45 mil anos e foram encontrados principalmente no Jura Suábio, no sul da Alemanha. Estatuetas talhadas em marfim, como figuras antropomórficas e representações de animais, exibem fileiras regulares de entalhes.
Além do valor artístico, essas marcas revelam algo ainda mais profundo: a capacidade humana de armazenar e transmitir informações antes mesmo do surgimento da escrita formal.
A análise não buscou decifrar o significado dos sinais, mas medir sua estrutura. Para isso, foram aplicados algoritmos capazes de calcular entropia informacional, uma métrica que estima quanta informação pode ser transmitida por um conjunto de símbolos.
Marcas da pré-história revelam origem gradual da escrita
A comparação com a proto-cuneiforme, desenvolvida por volta de 3.000 a.C., trouxe uma surpresa. Embora separadas por dezenas de milhares de anos, ambas apresentam níveis semelhantes de densidade informacional.
Entretanto, diferentemente dos sistemas modernos de escrita, que representam diretamente a linguagem falada, os sinais paleolíticos mostram forte repetição e padrões previsíveis. Isso sugere um modelo de codificação mais simples, porém eficaz.
Portanto, a escrita pode não ter surgido abruptamente. Ao que tudo indica, ela foi precedida por uma longa tradição de sistemas visuais estruturados, desenvolvidos gradualmente ao longo da evolução humana.
O que esses registros podem ter comunicado?
Ainda não sabemos exatamente qual tipo de informação era codificada por esses sinais. Entre as principais hipóteses estão a contagem de recursos ou presas, o registro de ciclos sazonais e até a marcação de pertencimento ou identidade. Independentemente da função específica, o estudo reforça que os humanos do Paleolítico já apresentavam capacidades cognitivas complexas, comparáveis às nossas.
Além disso, a pesquisa dialoga diretamente com a tecnologia contemporânea, já que a codificação de informação também sustenta os sistemas computacionais modernos. Em outras palavras, a escrita pode representar apenas uma etapa recente de uma habilidade muito mais antiga: a capacidade humana de transformar o mundo em símbolos organizados.

