Gravidez e amamentação podem fortalecer o cérebro feminino ao longo da vida, revela estudo

Estudo aponta que maternidade e saúde cognitiva caminham juntas. (Foto: Pexels via Canva)
Estudo aponta que maternidade e saúde cognitiva caminham juntas. (Foto: Pexels via Canva)

Durante décadas, as transformações cerebrais associadas à gravidez foram vistas apenas sob a ótica dos desafios imediatos, como lapsos de memória e dificuldade de concentração após o parto. No entanto, novas evidências científicas indicam que essas mudanças podem representar um investimento biológico de longo prazo na saúde cerebral feminina.

Um estudo recente publicado na revista Alzheimer’s & Dementia, intitulado Gravidez e amamentação estão associadas a menor declínio cognitivo na terceira idade em uma coorte longitudinal e prospectiva, liderado por Molly M. Fox, em 2026 (DOI: 10.1002/alz.71072), demonstrou que gravidez e amamentação estão associadas a melhor desempenho cognitivo em mulheres na pós-menopausa.

Adaptações cerebrais que vão além da maternidade

O cérebro feminino passa por alterações estruturais e funcionais profundas durante a gravidez, refletindo um processo evolutivo de adaptação. Embora essas mudanças possam gerar efeitos temporários no curto prazo, os dados indicam que, ao longo dos anos, elas podem contribuir para maior resiliência cognitiva.

O estudo analisou dados de mais de 7.000 mulheres, acompanhadas por até 13 anos, utilizando avaliações cognitivas anuais e testes multidimensionais de memória e função global. Esse acompanhamento prolongado permitiu observar padrões que estudos anteriores não conseguiram detectar.

Mais tempo de gravidez e amamentação, melhor desempenho cognitivo

Os resultados mostraram uma associação positiva clara entre o tempo cumulativo de gravidez e amamentação e a função cognitiva na velhice. Cada mês adicional de gravidez esteve ligado a um aumento gradual na pontuação de cognição global. O mesmo padrão foi observado com a amamentação, que também se associou a ganhos em memória verbal e visual.

Embora os efeitos individuais sejam considerados modestos, eles são comparáveis aos de fatores protetores já reconhecidos, como atividade física regular e ausência do tabagismo. Em doenças neurodegenerativas complexas, como o Alzheimer, pequenas reduções de risco podem ter impacto significativo em nível populacional.

Gravidez, amamentação e risco de Alzheimer

As mulheres são desproporcionalmente afetadas pela doença de Alzheimer, e essa diferença não pode ser explicada apenas pela maior expectativa de vida. O estudo sugere que o histórico reprodutivo pode ser uma peça importante desse quebra-cabeça, ajudando a explicar variações individuais no envelhecimento cerebral.

Além dos aspectos biológicos, fatores psicossociais também podem contribuir. A presença de filhos adultos, redes de apoio e maior engajamento social podem reduzir o estresse crônico e estimular comportamentos protetores para o cérebro.

Do “cérebro de mãe” à proteção cognitiva

No curto prazo, muitas mulheres relatam o declínio temporário da memória após o parto. Contudo, os dados indicam que esse fenômeno não representa perda permanente. Pelo contrário, ao longo das décadas, a gravidez e a amamentação podem estar associadas a melhor preservação cognitiva, sugerindo uma adaptação dinâmica do cérebro feminino.

Implicações para prevenção e saúde pública

Compreender os mecanismos que conectam reprodução e cognição pode abrir caminhos para:

  • Estratégias preventivas contra o Alzheimer
  • Desenvolvimento de intervenções terapêuticas inspiradas nesses efeitos naturais
  • Políticas de saúde focadas em envelhecimento cerebral saudável

Essas descobertas reforçam a necessidade de incluir a história reprodutiva como variável relevante em pesquisas sobre saúde cerebral feminina ao longo da vida.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) e une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica. Com rigor técnico e olhar atento, dedica-se a traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano, combatendo a desinformação com embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn