À primeira vista, esquizofrenia e osteoporose parecem doenças totalmente distintas. No entanto, uma ampla investigação genética mostrou que essas duas condições compartilham bases biológicas profundas.
Um estudo publicado na revista científica Genomic Psychiatry, intitulado Shared genetic architecture between schizophrenia and osteoporosis revealed by multilevel genomic analyses, identificou 195 loci genéticos compartilhados entre os transtornos psiquiátricos e a fragilidade óssea.
A pesquisa foi liderada por Feng Liu e colaboradores da Universidade Médica de Tianjin e analisou dados genômicos de mais de 500 mil indivíduos, revelando conexões moleculares que ajudam a explicar por que pessoas com esquizofrenia apresentam maior risco de fraturas ao longo da vida.
Uma comorbidade conhecida, mas pouco explicada
Há décadas, estudos clínicos observam que pacientes com esquizofrenia desenvolvem menor densidade mineral óssea e sofrem fraturas com mais frequência. Até agora, fatores como sedentarismo, deficiência de vitamina D e uso de antipsicóticos eram considerados explicações principais. No entanto, essas hipóteses não explicavam totalmente o fenômeno.
A nova análise mostra que parte desse risco está inscrita no próprio DNA, indicando que cérebro e osso compartilham mecanismos genéticos fundamentais desde o desenvolvimento.
Análise genômica em múltiplas camadas
Para revelar essa sobreposição, os pesquisadores utilizaram uma abordagem genômica multinível, combinando métodos capazes de detectar tanto padrões globais quanto sinais genéticos específicos. Essa estratégia permitiu identificar 1.376 genes codificadores de proteínas localizados em regiões associadas simultaneamente à esquizofrenia e à osteoporose.
Além disso, a análise considerou diferentes medidas de saúde óssea, como densidade mineral do corpo inteiro, coluna lombar, colo do fêmur, calcanhar e antebraço, ampliando a precisão dos resultados.
O calcanhar como ponto-chave da conexão genética

Entre os diferentes locais esqueléticos avaliados, a densidade mineral óssea do calcanhar apresentou a maior sobreposição genética com a esquizofrenia. Esse achado sugere que determinadas regiões do esqueleto são mais sensíveis aos efeitos de variantes genéticas associadas ao risco psiquiátrico.
Curiosamente, o antebraço não apresentou loci compartilhados, possivelmente devido ao menor tamanho amostral ou a diferenças biológicas específicas desse osso.
Vias biológicas que explicam a ligação
A análise funcional revelou que os genes compartilhados estão concentrados em processos essenciais, como:
- metabolismo de compostos nitrogenados
- desenvolvimento de estruturas anatômicas
- regulação biológica e metabólica
- processos envolvendo fósforo e síntese proteica
Essas vias são fundamentais tanto para a comunicação neuronal quanto para a formação e manutenção da matriz óssea, indicando que alterações nesses sistemas podem afetar simultaneamente a saúde mental e esquelética.
Implicações clínicas e preventivas
Esses achados abrem caminho para estratégias de prevenção precoce. No futuro, pessoas com esquizofrenia poderão se beneficiar de:
- monitoramento antecipado da densidade óssea
- avaliação genética integrada de risco
- intervenções preventivas antes do surgimento de fraturas
Além disso, a descoberta reforça a importância de uma abordagem médica mais integrada, que considere a saúde mental e física como sistemas biologicamente conectados.
Uma nova visão sobre doenças complexas
Ao demonstrar que esquizofrenia e osteoporose compartilham uma arquitetura genética robusta, o estudo amplia a compreensão das doenças complexas e reforça que o organismo funciona como uma rede integrada.
A conexão entre cérebro e ossos, antes inesperada, agora surge como um campo promissor para novas pesquisas e abordagens clínicas.

