Gene comum na população pode explicar a alta incidência de Alzheimer

Gene comum pode explicar por que o Alzheimer é tão frequente. (Foto: PhonlamaiPhoto's Images via Canva)
Gene comum pode explicar por que o Alzheimer é tão frequente. (Foto: PhonlamaiPhoto's Images via Canva)

Esquecimentos frequentes, dificuldade para encontrar palavras e lapsos de memória costumam ser tratados como algo normal do envelhecimento. No entanto, quando esses sinais se tornam persistentes, eles podem indicar o início de uma condição que afeta profundamente o cérebro, a autonomia e a vida familiar: a doença de Alzheimer

Evidências recentes sugerem que, por trás de grande parte desses casos, pode existir um fator genético central e até hoje subestimado.

Um único gene com impacto desproporcional

Ao analisar dados de centenas de milhares de pessoas, pesquisadores passaram a observar que o gene APOE pode exercer uma influência muito mais ampla sobre o Alzheimer do que se acreditava. Em vez de ser apenas um fator de risco entre vários, ele parece funcionar como um elemento-chave para o desenvolvimento da doença em boa parte da população.

O APOE é responsável pela produção de uma proteína envolvida no transporte de gorduras e colesterol, especialmente no cérebro. Alterações nessa proteína interferem diretamente na forma como os neurônios lidam com energia, resíduos metabólicos e processos inflamatórios.

Três variantes, efeitos muito diferentes no cérebro

APOE interfere na saúde dos neurônios e da memória. (Foto: NunDigital via Canva)
APOE interfere na saúde dos neurônios e da memória. (Foto: NunDigital via Canva)

O gene APOE apresenta três versões principais, chamadas ε2, ε3 e ε4. Cada pessoa herda duas cópias, formando diferentes combinações genéticas. Durante muitos anos, a variante ε4 foi reconhecida como a mais perigosa, associada a um risco elevado de Alzheimer. Já a ε3, a mais comum, era vista como praticamente neutra.

O que chama atenção agora é que essa visão pode estar incompleta. Quando avaliadas em conjunto, as variantes ε3 e ε4 parecem responder pela maior parte dos casos da doença, enquanto a ε2 surge como a forma mais protetora, associada a menor risco ao longo da vida.

A maioria dos casos pode depender do APOE

Modelagens populacionais indicam que entre 72% e mais de 90% dos casos de Alzheimer podem estar ligados à presença das variantes ε3 e ε4 do APOE. Isso sugere que, sem a influência desse gene, a doença simplesmente não se manifestaria na maioria das pessoas.

O impacto vai além do Alzheimer. Estimativas apontam que cerca de 45% de todos os casos de demência também podem depender da ação desse mesmo gene, reforçando seu papel central na saúde cerebral.

O que acontece no cérebro com a presença das variantes de maior risco

As variantes de maior risco do APOE parecem tornar o cérebro menos eficiente na remoção da proteína beta-amiloide, substância que forma placas associadas ao Alzheimer. Além disso, elas:

  • prejudicam o metabolismo de gorduras no cérebro
  • afetam a produção de energia dos neurônios
  • aumentam a inflamação cerebral crônica

Esses efeitos não causam a doença de forma imediata, mas criam um ambiente de desgaste progressivo, tornando o cérebro mais vulnerável ao longo dos anos.

Genética influencia, mas não determina o destino

Mesmo pessoas com duas cópias da variante de maior risco não estão condenadas ao Alzheimer. O desenvolvimento da doença depende da interação entre genética e fatores modificáveis, como tabagismo, sedentarismo, isolamento social, colesterol elevado e qualidade do sono.

Compreender o peso do APOE não significa aceitar a doença como inevitável, mas enxergar uma oportunidade estratégica para prevenção e novos tratamentos, especialmente aqueles capazes de agir diretamente nessa via biológica central.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.